
“Neste ponto, meu caro Thomas, a opinião da maioria (de que o acesso à Internet criaria um “habitat ideal, político e democrático”, como tu disseste) esbarrou numa amarga desilusão. O acesso à web não revelou ser a busca de uma maior iluminação, de mais amplos horizontes, de conhecimento de ideias e estilos de vida que se ignoravam, para nela se instaurar aquele diálogo que o “habitat democrático ideal” requeria. A maior parte das pesquisas sociológicas a tal respeito mostra que a maioria dos utilizadores usa a Internet atraída, não tanto, pela oportunidade de acesso, mas pela possibilidade de saída (exit). Esta segunda oportunidade, até agora, revelou-se mais sedutora; é muito mais usada para construir um refúgio do que para derrubar muros e abrir paredes; para talhar uma confort zone privada, longe da confusão do mundo caótico e desordenado da vida e dos desejos que ele lança ao intelecto e à tranquilidade do espírito; para nos precavermos da necessidade de dialogar com pessoas potencialmente irritantes e stressantes, por terem opiniões diferentes das nossas e difíceis de compreender, e, consequentemente, da necessidade de nos envolvermos num debate, correndo o risco de sairmos derrotados do mesmo. Com o simples expediente de apagarmos aquilo que não queremos que apareça ou impedir o acesso a visitas indesejadas, a rede permite um “isolamento fantástico”, simplesmente irrealizável e inconcebível no mundo offline(experimentem, se forem capazes, alcançar o mesmo objectivo na rua, na vizinhança, no local de trabalho…).
Em vez de servir a causa de aumentar a qualidade de integração humana, de compreensão, cooperação e solidariedade recíprocas, a web facilitou práticas de isolamento (enclosure), separação, exclusão, inimizade e conflituosidade.”
Excerto de Nados líquidos - Transformações do terceiro milénio, de Zygmunt Bauman e Thomas Leoncini (Relógio d'Água)

