Falho – Duques do Precariado

Semi-semita, fui soprado pelas narinas
com uma missão esquisita, não sabia desvendar.
Sentia um peso, mas que não vinha de cima,
uma coisa aqui de dentro, e custava a carregar.

Fui c’o João, da região.
Jantámos gafanhotos no Jordão.
E ele ensinou-me q’eu era o filho prometido
e à noite fui comido por mosquitos a rezar.

Ó pai,
Pai, em q’é q’eu falho?

Sou da mate´ria dos suspiros da Maria,
sou as notas q’assobias, não te voltas a lembrar.
Mas à noite quando durmo tenho frio,
tenho fome e quem me viu decidiu ignorar.

Sou a palavra, a labareda larga,
sou a piada q’inda não foi trabalhada.
Eu sei, eu sei, que sou o filho prometido,
mas ó pai eu não consigo saber onde começar .

Ó pai,
Pai, em q’é q’eu falho?

Sou bom mineiro mas sou muito mau ourives.
Sou-o desde o berço, desde o berço me aflige.
Na escuridão encontro tudo o que é preciso,
Mas as coisas q’ela diz eu desisto d’explicar.

Queres um milagre? Toma um milagre.
Só acreditam quando vêem um milagre.
Eu sou o reino, a raiz, o teu caminho,
e preciso de um milagre pra um amigo acreditar.

Ó pai:
Pai, em q’é q’eu falho?

Eu percebo em teoria
Onde acaba o meu trabalho
Eu percebo e não aprendo
E em teoria nunca falho

Fui o primeiro a inventar o amor livre,
e as sementes d’anarquia q’inda voam pelo ar.
Mas por cada bem que crio, vem um mano com juízo
q’é preciso institucionalizar.

Sou marciano, ou afro-ariano?
Ninguém se lembra q’eu sou palestiano.
Nem Isaías, nem tão pouco o Ezequias,
sou aquele já sabias, mas não queres acreditar

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