Uma história simples, de Leonardo Sciascia

Entretanto, o juiz levantara-se para receber o seu antigo professor.

– Que prazer revê-lo passados tantos anos!

– Tantos mesmo. E pesam-me – respondeu o professor.

– Não diga isso. Não mudou nada.

– Mas você, sim – disse o professor, com a sua habitual franqueza.

– Este maldito trabalho… Mas porque me trata por você?

– Como dantes – disse o professor.

– Mas agora…

– Não.

– Mas lembra-se de mim?

– Claro que me lembro.

– Posso perguntar-lhe uma coisa?… Depois farei outras perguntas, de natureza diferente… Nas composições de italiano, o professor dava-me sempre um dois, porque eu copiava. Mas uma vez deu-me um três: porquê?

– Porque copiou de um autor mais inteligente.

O juiz desatou a rir.

– Sempre fui mau em Italiano. Mas, como vê, não foi um grande problema. Cheguei até aqui: procurador da República…

– Italiano não tem que ver com o italiano, tem que ver com a capacidade de pensar – disse o professor. – Com menos italiano, talvez tivesse chegado ainda mais longe.

A piada foi dura. O juiz empalideceu. E deu início a um duro interrogatório.

excerto de Uma história simples, de Leonardo Sciascia (Editorial Presença)

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