• “Chopped Off Arm”

    Don’t stick your arm out the window,
    Mother said. Another car can sneak up
    behind us, & chop it off. Then your father
    will have to stop, stick the severed piece
    in the trunk, & drive you to the hospital.
    It’s not like the parts of your telescope that
    snap back on. A doctor will have to sew it.
    You won’t be able to wear short sleeves.
    You won’t want anyone to see the stitches.

  • O pénalti, de Robert McCrum

    A genialidade do pontapé de pénalti – exposto na Lei 14 – resultou tanto do cálculo como da sorte. À primeira vista, as probabilidades são terríveis. A zona defendida pelo guarda-redes tem apenas 7,32 m de largura e 2,44 m de altura, e apresenta um alvo que, de muito perto, a maioria dos observadores neutros diria que é impossível de falhar. Na verdade, os guarda-redes profissionais dizem que a menos de um metro do poste está fora do alcance e é indefensável. Mas é aqui que entra uma vantagem psicológica inesperada. Sem que o seu criador o previsse, o pontapé de pénalti tornou-se um desafio psicológico tão grande que cerca de 33% dos pénaltis são falhados ou defendidos. Poucos apostadores ficariam agradados com tais percentagens, mas Willie McCrum era viciado na emoção do risco. A sua nova e ousada regra era obra de um guarda- redes amador que não se importava de estar no centro das atenções.

    excerto de O pénalti - História de uma invenção que mudou o futebol, de Robert McCrum (Zigurate)
  • Storytelling

    “As pessoas não querem mais informação, escreve Annette Simmons, autora de um dos best-sellers de storytelling. Eles querem crer – em vocês, nos vossos objectivos, nos vossos sucessos, na história que vocês contam. É a fé que faz mover as montanhas e não os factos. Os factos não fazem nascer a fé. A fé precisa duma história para se sustentar – uma história significante que seja credível e que transmita fé em vocês.”.

    Donde a importância das práticas de autolegitimação e de autovalidação, visto a fonte única da prestação dum guru, é a sua própria pessoa: é ele a fonte das narrativas úteis e dos seus efeitos misteriosos, é nele que se concentram as competências narrativas. Ele é o agente e o mediador, o mensageiro e a mensagem. Ele deve convencer-vos que tudo está em ordem, conforme ao bom senso, ao direito natural. Ele não vos ensina um saber técnico, ele transmite uma sabedoria proverbial, que cultiva o bom senso popular, faz apelo às leis da natureza e convoca uma ordem mítica.

    excerto de Storytelling - La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits, de Christian Salmon (éditions la découverte)

    tradução selvagem feita por leitor improvável a páginas 70

  • Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes

    Nas minhas conversas no Casteleiro, haverá quem me fale de coisas que acontecem de forma «instantânica», ou de alguém que se começou a «desbaldar» de escrever a assinatura, que houve muita gente que andou no minério, no «alfrâmio», e que dantes só se dava importância aos «chões», querendo dizer terras, ou que alguém sofreu um ataque «sobral», ou que para ali está um homem assim, «alfabeto», querendo dizer «analfabeto».

    No momento em que recordo estas palavras, vêm-me à memórias outras: «ogranizar», «desmagar», «estransformar», «estamparente», «desquecer». Lembro o afecto com que coleccionei os erros dos meus filhos, nos poucos anos em que não sabiam ler, porque tinha noção de que eram preciosidades linguísticas de um tempo do qual eu adivinhava que teria saudades. As palavras erradas, que guardo num ficheiro Word chamado «estransformações», devolvem-me a infância dos meus filhos, a inventividade da oralidade, a plasticidade da linguagem nesta fase primeira das suas vidas. O meu filho mais novo dizia «sustionar» em vez de «estacionar». Dizia, mas já não diz. Quando ainda não se sabe ler, fala-se como se ouve; quando aprenderam a ler, os meus filhos corrigiram as suas palavras erradas. Com adultos que nunca aprenderam a ler é diferente, as palavras deturpadas ficam para sempre, cicatriz de vida.

    Decido que, neste livro, ninguém, a partir de Horácio, dará erros no papel. É a forma que encontro de emendar a história. É essa a beleza da escrita: pode proteger de uma maneira que uma câmara de filmar não conseguiria. Corrigindo quem nunca pôde aprender, resguardo-os, ao menos nestas páginas. Aqui, ninguém os apoucará, ninguém lhes dirá que são burros.

    excerto de Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes (Edição FFMS)
  • O sr. Koslowski falta à manifestação

    Se o sofá não
    fosse cómodo (e a rua não fosse
    tão longe) juro
    que ergueria o peso imenso da alma
    e ia à
    manifestação. Desta vez juro que iria. Mas
    do que posso ajuizar (pelas
    imagens em directo) chegaria atrasado
    já lá estão os companheiros
    (com
    palavras levantadas) lutando por eles
    e por mim. Menos um não faz diferença. Mas
    juro que irei partilhar (daqui
    deste meu sofá) o
    texto do comunicado e
    quando ouvir no ecrã o cinismo do ministro
    juro que o
    vou insultar. Daqui deste meu sofá.
    Desta vez
    estou empenhado

    excerto de Claridade, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal)
  • When a Billion Chinese Jump, by Jonathan Watts

    As a young child, Jonathan Watts believed if everyone in China jumped at the same time, the earth would be shaken off its axis, annihilating mankind. Now, more than thirty years later, as a correspondent for The Guardian in Beijing, he has discovered it is not only foolish little boys who dread a planet-shaking leap by the world’s most populous nation.

    When a Billion Chinese Jump is a road journey into the future of our species. Traveling from the mountains of Tibet to the deserts of Inner Mongolia via the Silk Road, tiger farms, cancer villages, weather-modifying bases, and eco-cities, Watts chronicles the environmental impact of economic growth with a series of gripping stories from the country on the front line of global development. He talks to nomads and philosophers, entrepreneurs and scientists, rural farmers and urban consumers, examining how individuals are trying to adapt to one of the most spectacular bursts of change in human history, then poses a question that will affect all of our lives: Can China find a new way forward or is this giant nation doomed to magnify the mistakes that have already taken humanity to the brink of disaster?


    In the nineteenth century, Britain thought the world how to produce. In the twentieth, the US thought us how to consume. If China is to lead the world in the twenty-first century, it must teach us how to sustain.

    excerpt from When a Billion Chinese Jump - How China Will Save the World - or Destroy It, by Jonathan Watts (edição portuguesa)
  • Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist

    – Pum, estás morto! – dizíamos nós. – Pum, matei-te – dizíamos sempre isto. Brincávamos às guerras. Muitos em grupo, ou dois a dois, ou nos nossos sonhos solitários, era sempre guerra, sempre morte.

    – Não brinquem dessa maneira – diziam os pais. – Podem ficar assim para sempre.

    Grande perigo! O que nós mais queriamos era mesmo ser assim. Não precisávamos de brinquedos bélicos. Qualquer pau se transformava numa arma nas nossas mãos, e as pinhas eram bombas. Não me lembro de ter feito uma única vez chichi em criança, fosse ao ar livre ou na retrete, sem escolher um alvo, apontar para ele e bombardear. Aos cinco anos já era um perito em bombardeamento.

    – Se todos brincarem assim – dizia a minha mãe – vai haver uma guerra.

    E tinha razão. Houve mesmo.

    excerto de Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist (Antígona)