• Storytelling

    “As pessoas não querem mais informação, escreve Annette Simmons, autora de um dos best-sellers de storytelling. Eles querem crer – em vocês, nos vossos objectivos, nos vossos sucessos, na história que vocês contam. É a fé que faz mover as montanhas e não os factos. Os factos não fazem nascer a fé. A fé precisa duma história para se sustentar – uma história significante que seja credível e que transmita fé em vocês.”.

    Donde a importância das práticas de autolegitimação e de autovalidação, visto a fonte única da prestação dum guru, é a sua própria pessoa: é ele a fonte das narrativas úteis e dos seus efeitos misteriosos, é nele que se concentram as competências narrativas. Ele é o agente e o mediador, o mensageiro e a mensagem. Ele deve convencer-vos que tudo está em ordem, conforme ao bom senso, ao direito natural. Ele não vos ensina um saber técnico, ele transmite uma sabedoria proverbial, que cultiva o bom senso popular, faz apelo às leis da natureza e convoca uma ordem mítica.

    excerto de Storytelling - La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits, de Christian Salmon (éditions la découverte)

    tradução selvagem feita por leitor improvável a páginas 70

  • Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes

    Nas minhas conversas no Casteleiro, haverá quem me fale de coisas que acontecem de forma «instantânica», ou de alguém que se começou a «desbaldar» de escrever a assinatura, que houve muita gente que andou no minério, no «alfrâmio», e que dantes só se dava importância aos «chões», querendo dizer terras, ou que alguém sofreu um ataque «sobral», ou que para ali está um homem assim, «alfabeto», querendo dizer «analfabeto».

    No momento em que recordo estas palavras, vêm-me à memórias outras: «ogranizar», «desmagar», «estransformar», «estamparente», «desquecer». Lembro o afecto com que coleccionei os erros dos meus filhos, nos poucos anos em que não sabiam ler, porque tinha noção de que eram preciosidades linguísticas de um tempo do qual eu adivinhava que teria saudades. As palavras erradas, que guardo num ficheiro Word chamado «estransformações», devolvem-me a infância dos meus filhos, a inventividade da oralidade, a plasticidade da linguagem nesta fase primeira das suas vidas. O meu filho mais novo dizia «sustionar» em vez de «estacionar». Dizia, mas já não diz. Quando ainda não se sabe ler, fala-se como se ouve; quando aprenderam a ler, os meus filhos corrigiram as suas palavras erradas. Com adultos que nunca aprenderam a ler é diferente, as palavras deturpadas ficam para sempre, cicatriz de vida.

    Decido que, neste livro, ninguém, a partir de Horácio, dará erros no papel. É a forma que encontro de emendar a história. É essa a beleza da escrita: pode proteger de uma maneira que uma câmara de filmar não conseguiria. Corrigindo quem nunca pôde aprender, resguardo-os, ao menos nestas páginas. Aqui, ninguém os apoucará, ninguém lhes dirá que são burros.

    excerto de Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes (Edição FFMS)
  • O sr. Koslowski falta à manifestação

    Se o sofá não
    fosse cómodo (e a rua não fosse
    tão longe) juro
    que ergueria o peso imenso da alma
    e ia à
    manifestação. Desta vez juro que iria. Mas
    do que posso ajuizar (pelas
    imagens em directo) chegaria atrasado
    já lá estão os companheiros
    (com
    palavras levantadas) lutando por eles
    e por mim. Menos um não faz diferença. Mas
    juro que irei partilhar (daqui
    deste meu sofá) o
    texto do comunicado e
    quando ouvir no ecrã o cinismo do ministro
    juro que o
    vou insultar. Daqui deste meu sofá.
    Desta vez
    estou empenhado

    excerto de Claridade, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal)
  • When a Billion Chinese Jump, by Jonathan Watts

    As a young child, Jonathan Watts believed if everyone in China jumped at the same time, the earth would be shaken off its axis, annihilating mankind. Now, more than thirty years later, as a correspondent for The Guardian in Beijing, he has discovered it is not only foolish little boys who dread a planet-shaking leap by the world’s most populous nation.

    When a Billion Chinese Jump is a road journey into the future of our species. Traveling from the mountains of Tibet to the deserts of Inner Mongolia via the Silk Road, tiger farms, cancer villages, weather-modifying bases, and eco-cities, Watts chronicles the environmental impact of economic growth with a series of gripping stories from the country on the front line of global development. He talks to nomads and philosophers, entrepreneurs and scientists, rural farmers and urban consumers, examining how individuals are trying to adapt to one of the most spectacular bursts of change in human history, then poses a question that will affect all of our lives: Can China find a new way forward or is this giant nation doomed to magnify the mistakes that have already taken humanity to the brink of disaster?


    In the nineteenth century, Britain thought the world how to produce. In the twentieth, the US thought us how to consume. If China is to lead the world in the twenty-first century, it must teach us how to sustain.

    excerpt from When a Billion Chinese Jump - How China Will Save the World - or Destroy It, by Jonathan Watts (edição portuguesa)
  • Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist

    – Pum, estás morto! – dizíamos nós. – Pum, matei-te – dizíamos sempre isto. Brincávamos às guerras. Muitos em grupo, ou dois a dois, ou nos nossos sonhos solitários, era sempre guerra, sempre morte.

    – Não brinquem dessa maneira – diziam os pais. – Podem ficar assim para sempre.

    Grande perigo! O que nós mais queriamos era mesmo ser assim. Não precisávamos de brinquedos bélicos. Qualquer pau se transformava numa arma nas nossas mãos, e as pinhas eram bombas. Não me lembro de ter feito uma única vez chichi em criança, fosse ao ar livre ou na retrete, sem escolher um alvo, apontar para ele e bombardear. Aos cinco anos já era um perito em bombardeamento.

    – Se todos brincarem assim – dizia a minha mãe – vai haver uma guerra.

    E tinha razão. Houve mesmo.

    excerto de Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist (Antígona)
  • O monarca das sombras, de Javier Cercas

    – O problema foi esse, a povoação dividir-se a meio e a convivência tornar-se muito difícil – disse Alejandro -. Olha, Javi, não há coisa que mais me irrite do que as interpretações equidistantes da guerra, as de 50%, essas que dizem que aquilo foi uma tragédia e que os dois lados tinham razão. É mentira. Aqui o que houve foi um golpe militar apoiado pela oligarquia e pela Igreja contra uma democracia. Claro que essa democracia não era perfeita, nada disso, e que no fim pouca gente acreditava nela e respeitava as suas regras, mas continuava a ser uma democracia; de modo que a razão política quem a tinha eram os republicanos. Ponto. Mas também me irrita muito a interpretação sectária, religiosa ou infantil da guerra, segundo a qual a República era o paraíso terrestre, todos os republicanos foram anjos que não mataram ninguém e todos os franquistas, demónios que não paravam de matar; é outra mentira… Repara, eu sempre percebi muito bem por que razão a minha família paterna, a tua, era franquista. No fim de contas eram eles quem punha e dispunha cá na terra; mas durante muito tempo me interroguei sobre as razões de o meu avô Alejandro, pai da minha mãe, um homem muito humilde, um pastor, um simples jornaleiro, se ter alistado como voluntário no exército de Franco, partindo para Madrid com o teu avô Paco e com outros tantos homens de Ibahernando nos primeiros dias da guerra. E agora, depois de muitos anos a fazer a mim próprio essa pergunta, percebo que a resposta é evidente: era um defensor da ordem; não aceitava nem conseguia compreender que não se apanhassem ou se queimassem as colheitas, que se queimassem olivais, que se invadissem herdades, que se roubassem animais, que se amedrontassem as pessoas. Achava mal, achava intolerável. O meu avô Alejandro era um homem traumatizado pela desordem e pela impossibilidade de conviver em paz, pelo medo. Tal como o teu avô Paco. Nenhum dos dois foi para a guerra por convicção política, por quererem mudar o mundo ou fazer a revolução nacional-socialista; tens de perceber isso, Javi. Foram para a guerra porque sentiram era a sua obrigação, porque não viram outra outra saída. E sabes o que ganharam com isso? Nada. Outros encheram o bandulho e levaram tudo, mas eles não. Não ganharam nada. O teu avô teve mesmo de sair da vila para conseguir manter a família, trabalhando na terra aqui e ali, de sol a sol, e o meu avô, já vês, toda a vida um modesto lavrador. Isso foi assim e aqui ninguém te dirá o contrário porque mentiria. Mas Manolo tem toda a razão: Ibahernando não é Barcelona ou Madrid. Para além dos confrontos resultantes do esforço da República em modernizar o país e de todas essas coisas que lemos nos livros de História e que são verdades, o que se passava aqui antes da guerra, como em tantos locais da Extremadura, da Andaluzia e de tantos outros sítios, era muito mais elementar: era uma situação de necessidade extrema que põe em confronto, como dizia Manolo, aqueles que não têm o que comer e aqueles que têm o que comer; têm muito pouco, o imprescíndivel, mas têm. E é aqui que a coisa começa a parecer-se com uma tragédia, porque os que passam fome têm razão para odiar os que conseguem comer; e os que conseguem comer têm razão ao recear aqueles que passam fome. E uns e outros chegam assim a uma conclusão aterradora: ou eles ou nós. Se ganharem eles, matam-nos; se ganharmos nós, teremos de matá-los. Essa foi a situação impossível a que os responsáveis do país levararm esta pobre gente.

    excerto de O monarca das sombras, de Javier Cercas (Assírio & Alvim)
  • Os pobrezinhos

    Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e de comida. 

    Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços para poderem ser calçados pelos donos, de preferência rotos para poderem vestir camisas velhas que se salvavam desse modo de um destino natural de esfregões, de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina) deviam possuir outras caracteristicas imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbados e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a que pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria.

    – Eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.

    O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente. No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes e deslocavam-se piamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à estrada militar, a fim de distribuirem numa pompa de reis magos peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas das suas barracas alvoroçados e gratos e as minhas tias preveniam-me logo enxotando-os com as costas da mão

    – Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

    Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer moedas aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

    (- Esta gente coitada não tem a noção do dinheiro)

    de forma deletéria e irresponsável. O pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar em casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma, recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

    – Agora veja lá não gaste tudo em vinho

    O atrevido lhe respondeu malcriadíssimo.

    – Não minha senhora vou comprar um Alfa-Romeu.

    Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar a razão destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros.

    – O que é que o menino quer esta gente é assim

    E eu entendi que ser pobre, mais que um destino, era uma espécie de vocação como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

    A amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o Padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um cruxifico de mogno. O Padre Cruz era um sujeito chupado de batina e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e a partir da altura em que me revelaram este milagre tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

    – Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

    E eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão. Na minha ideia o Padre Cruz e a Sãozinha eram casados tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado Almanaque da Sãozinha se narravam em comunhão de bens os milagres de ambos, que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos de incenso. 

    Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam e creio que foi por essa época que principiei a olhar com afecto crescente uma gravura poeirenta atirada para o sotão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

    excerto de As crónicas, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)