Leituras Improváveis
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um registo digital
  • 10.04.2026

    Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes

    Nas minhas conversas no Casteleiro, haverá quem me fale de coisas que acontecem de forma «instantânica», ou de alguém que se começou a «desbaldar» de escrever a assinatura, que houve muita gente que andou no minério, no «alfrâmio», e que dantes só se dava importância aos «chões», querendo dizer terras, ou que alguém sofreu um ataque «sobral», ou que para ali está um homem assim, «alfabeto», querendo dizer «analfabeto».

    No momento em que recordo estas palavras, vêm-me à memórias outras: «ogranizar», «desmagar», «estransformar», «estamparente», «desquecer». Lembro o afecto com que coleccionei os erros dos meus filhos, nos poucos anos em que não sabiam ler, porque tinha noção de que eram preciosidades linguísticas de um tempo do qual eu adivinhava que teria saudades. As palavras erradas, que guardo num ficheiro Word chamado «estransformações», devolvem-me a infância dos meus filhos, a inventividade da oralidade, a plasticidade da linguagem nesta fase primeira das suas vidas. O meu filho mais novo dizia «sustionar» em vez de «estacionar». Dizia, mas já não diz. Quando ainda não se sabe ler, fala-se como se ouve; quando aprenderam a ler, os meus filhos corrigiram as suas palavras erradas. Com adultos que nunca aprenderam a ler é diferente, as palavras deturpadas ficam para sempre, cicatriz de vida.

    Decido que, neste livro, ninguém, a partir de Horácio, dará erros no papel. É a forma que encontro de emendar a história. É essa a beleza da escrita: pode proteger de uma maneira que uma câmara de filmar não conseguiria. Corrigindo quem nunca pôde aprender, resguardo-os, ao menos nestas páginas. Aqui, ninguém os apoucará, ninguém lhes dirá que são burros.

    excerto de Um dedo Borrado de Tinta, de Catarina Gomes (Edição FFMS)

    Categoria: Livros
    Etiquetas: analfabetismo, catarina gomes, portugal

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  • 09.04.2026

    Land of opportunities

    VISIT US!

    Categoria: Humor
    Etiquetas: nonsense, portugal

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  • 03.04.2026

    Vida Moderna

    A burguesia portuguesa nunca foi nem é liberal. Pobre e fraca, precisou sempre dos favores do Estado. Os seus pedidos de condicionamento industrial, proteccionismo externo e contenção salarial atravessam a História contemporânea. A monarquia oitecentista e a Républica deram-lhe algumas migalhas; o Estado Novo satisfaria as suas aspirações, ao conceder-lhe aquilo que ela precisava, inclusivamente um chefe que a pusesse na ordem. Sem pudor, Salazar  interveio em todas as esferas da vida nacional, da economia à cor do batom das professoras. Nunca se conhecera tamanha interferência estatal. Durante 50 anos, sem que tal facto a incomodasse minimamente, a direita viveu à sombra de um Estado tentacular. Só depois de 1974, o Estado lhe apareceu como um Leviatã. A explicação é simples: quando este deixou de servir exclusivamente os seus interesses, a direita deixou de amar o Estado.

    excerto de Vida Moderna, de Maria Filomena Mónica (Quetzal)

    Categoria: Política, Sociedade
    Etiquetas: burguesia, estado, maria filomena mónica, portugal

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  • 03.02.2026

    Os cus de Judas, de António Lobo Antunes

    De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais do Estado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenárias sul-africanas que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas atrizes de revista a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadas por um acordeão exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente de orgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquanto o tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num êstase mudo. O capelão, contrito, descia as pálpebras virgens sobre o breviário da sopa.


    – Quarenta anos a acumular esperma — calculava o capitão idoso a medi-lo de longe. — Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na água benta dos tomates.

    excerto de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes

    Categoria: Humor, Livros
    Etiquetas: antónio lobo antunes, guerra colonial, portugal, religião

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  • 28.01.2026

    Não procures coerência no comportamento humano

    Categoria: Fotografia, Política
    Etiquetas: ephemera, francisco sá carneiro, ideologias, portugal, ppd, psd

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  • 10.01.2026

    A duas voltas

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    Categoria: Política, Sociedade
    Etiquetas: 1986, eleições, freitas do amaral, maria de lurdes pintasilgo, mário soares, portugal, presidenciais, recordar é viver, salgado zenha

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  • 02.01.2026

    BiblioLED

    Biblioled

    Categoria: Livros
    Etiquetas: biblioled, portugal, serviços digitais

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