• Storytelling

    “As pessoas não querem mais informação, escreve Annette Simmons, autora de um dos best-sellers de storytelling. Eles querem crer – em vocês, nos vossos objectivos, nos vossos sucessos, na história que vocês contam. É a fé que faz mover as montanhas e não os factos. Os factos não fazem nascer a fé. A fé precisa duma história para se sustentar – uma história significante que seja credível e que transmita fé em vocês.”.

    Donde a importância das práticas de autolegitimação e de autovalidação, visto a fonte única da prestação dum guru, é a sua própria pessoa: é ele a fonte das narrativas úteis e dos seus efeitos misteriosos, é nele que se concentram as competências narrativas. Ele é o agente e o mediador, o mensageiro e a mensagem. Ele deve convencer-vos que tudo está em ordem, conforme ao bom senso, ao direito natural. Ele não vos ensina um saber técnico, ele transmite uma sabedoria proverbial, que cultiva o bom senso popular, faz apelo às leis da natureza e convoca uma ordem mítica.

    excerto de Storytelling - La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits, de Christian Salmon (éditions la découverte)

    tradução selvagem feita por leitor improvável a páginas 70

  • The Great Hack

  • When a Billion Chinese Jump, by Jonathan Watts

    As a young child, Jonathan Watts believed if everyone in China jumped at the same time, the earth would be shaken off its axis, annihilating mankind. Now, more than thirty years later, as a correspondent for The Guardian in Beijing, he has discovered it is not only foolish little boys who dread a planet-shaking leap by the world’s most populous nation.

    When a Billion Chinese Jump is a road journey into the future of our species. Traveling from the mountains of Tibet to the deserts of Inner Mongolia via the Silk Road, tiger farms, cancer villages, weather-modifying bases, and eco-cities, Watts chronicles the environmental impact of economic growth with a series of gripping stories from the country on the front line of global development. He talks to nomads and philosophers, entrepreneurs and scientists, rural farmers and urban consumers, examining how individuals are trying to adapt to one of the most spectacular bursts of change in human history, then poses a question that will affect all of our lives: Can China find a new way forward or is this giant nation doomed to magnify the mistakes that have already taken humanity to the brink of disaster?


    In the nineteenth century, Britain thought the world how to produce. In the twentieth, the US thought us how to consume. If China is to lead the world in the twenty-first century, it must teach us how to sustain.

    excerpt from When a Billion Chinese Jump - How China Will Save the World - or Destroy It, by Jonathan Watts (edição portuguesa)
  • Filmes para fazer pensar

  • Vida Moderna

    A burguesia portuguesa nunca foi nem é liberal. Pobre e fraca, precisou sempre dos favores do Estado. Os seus pedidos de condicionamento industrial, proteccionismo externo e contenção salarial atravessam a História contemporânea. A monarquia oitecentista e a Républica deram-lhe algumas migalhas; o Estado Novo satisfaria as suas aspirações, ao conceder-lhe aquilo que ela precisava, inclusivamente um chefe que a pusesse na ordem. Sem pudor, Salazar  interveio em todas as esferas da vida nacional, da economia à cor do batom das professoras. Nunca se conhecera tamanha interferência estatal. Durante 50 anos, sem que tal facto a incomodasse minimamente, a direita viveu à sombra de um Estado tentacular. Só depois de 1974, o Estado lhe apareceu como um Leviatã. A explicação é simples: quando este deixou de servir exclusivamente os seus interesses, a direita deixou de amar o Estado.

    excerto de Vida Moderna, de Maria Filomena Mónica (Quetzal)
  • O monarca das sombras, de Javier Cercas

    – O problema foi esse, a povoação dividir-se a meio e a convivência tornar-se muito difícil – disse Alejandro -. Olha, Javi, não há coisa que mais me irrite do que as interpretações equidistantes da guerra, as de 50%, essas que dizem que aquilo foi uma tragédia e que os dois lados tinham razão. É mentira. Aqui o que houve foi um golpe militar apoiado pela oligarquia e pela Igreja contra uma democracia. Claro que essa democracia não era perfeita, nada disso, e que no fim pouca gente acreditava nela e respeitava as suas regras, mas continuava a ser uma democracia; de modo que a razão política quem a tinha eram os republicanos. Ponto. Mas também me irrita muito a interpretação sectária, religiosa ou infantil da guerra, segundo a qual a República era o paraíso terrestre, todos os republicanos foram anjos que não mataram ninguém e todos os franquistas, demónios que não paravam de matar; é outra mentira… Repara, eu sempre percebi muito bem por que razão a minha família paterna, a tua, era franquista. No fim de contas eram eles quem punha e dispunha cá na terra; mas durante muito tempo me interroguei sobre as razões de o meu avô Alejandro, pai da minha mãe, um homem muito humilde, um pastor, um simples jornaleiro, se ter alistado como voluntário no exército de Franco, partindo para Madrid com o teu avô Paco e com outros tantos homens de Ibahernando nos primeiros dias da guerra. E agora, depois de muitos anos a fazer a mim próprio essa pergunta, percebo que a resposta é evidente: era um defensor da ordem; não aceitava nem conseguia compreender que não se apanhassem ou se queimassem as colheitas, que se queimassem olivais, que se invadissem herdades, que se roubassem animais, que se amedrontassem as pessoas. Achava mal, achava intolerável. O meu avô Alejandro era um homem traumatizado pela desordem e pela impossibilidade de conviver em paz, pelo medo. Tal como o teu avô Paco. Nenhum dos dois foi para a guerra por convicção política, por quererem mudar o mundo ou fazer a revolução nacional-socialista; tens de perceber isso, Javi. Foram para a guerra porque sentiram era a sua obrigação, porque não viram outra outra saída. E sabes o que ganharam com isso? Nada. Outros encheram o bandulho e levaram tudo, mas eles não. Não ganharam nada. O teu avô teve mesmo de sair da vila para conseguir manter a família, trabalhando na terra aqui e ali, de sol a sol, e o meu avô, já vês, toda a vida um modesto lavrador. Isso foi assim e aqui ninguém te dirá o contrário porque mentiria. Mas Manolo tem toda a razão: Ibahernando não é Barcelona ou Madrid. Para além dos confrontos resultantes do esforço da República em modernizar o país e de todas essas coisas que lemos nos livros de História e que são verdades, o que se passava aqui antes da guerra, como em tantos locais da Extremadura, da Andaluzia e de tantos outros sítios, era muito mais elementar: era uma situação de necessidade extrema que põe em confronto, como dizia Manolo, aqueles que não têm o que comer e aqueles que têm o que comer; têm muito pouco, o imprescíndivel, mas têm. E é aqui que a coisa começa a parecer-se com uma tragédia, porque os que passam fome têm razão para odiar os que conseguem comer; e os que conseguem comer têm razão ao recear aqueles que passam fome. E uns e outros chegam assim a uma conclusão aterradora: ou eles ou nós. Se ganharem eles, matam-nos; se ganharmos nós, teremos de matá-los. Essa foi a situação impossível a que os responsáveis do país levararm esta pobre gente.

    excerto de O monarca das sombras, de Javier Cercas (Assírio & Alvim)
  • A selfie de hoje é o perfil biométrico de amanhã

    “Publication is a self-invasion of privacy. The more the data banks record about each one of us, the less we exist.”

    Marshall McLuhan