• Badvertising

    L’affaire Cipollone aux État-Unis fut finalment réglée en 1992, aprés huit ans de procédure. Le veredict contredit l’affirmation de l’industrie du tabac selon laquelle de telles poursuites étaient interdites par la loi fédérale américaine, et entraîna des centaines de procès ultérieurs. Pourtant, les deux camps – l’industrie du tabac et les militants de la santé – revendiquèrent la victoire. L’industrie du tabac, car l’affaire démontrait la complexité et le coût des procédures judiciaires à son encontre, et parce que le jugement final restait nuancé, comportant de nombreuses réserves. Par exemple, il limitait les futurs plaignants potentiels à ceux qui étaient tombés malades avant l’introduction des avertissements sanitaires fédéraux sur les paquets de cigarettes à la fin des années 1960. Cependant, du point de vue des défenseurs de la santé publique, cette affaire marqua un tournant fondamental, car elle établit fermement dans le débat public que l’industrie du tabac était engagée dans une véritable conspiration visant à désinformer le public pour maximiser ses profits, au prix de milliers de morts prématurées.

    Le parallèle contemporain intéressant est la manière dont l’avocat qui mena l’accusation contre l’industrie, Marc Edell, se concentra sur la puissance de la publicité du tabac. Il démontra que cette publicité était une stratégie délibérée et sans scrupule destinée à éclipser les avertissements sanitaires désormais obligatoires sur les paquets, afin de promouvoir le tabagisme et d’entretenir l’addiction à la nicotine. De la même manière, la publicité pour les produits à forte empreinte carbone qu’il s’agisse de greenwashing des compagnies pétrolières, de la promotion des SUV comme des jouets familiaux idéaux, ou encore de la banalisation des voyages aériens longue distance-peut être perçue comme une stratégie visant à détourner l’attention des mises en garde sur l’impact environnemental, même avec l’introduction progressive d’étiquettes d’émissions obligatoires.

    Badvertising - Comment la publicité pollue la nature et nos cerveaux, par Andrew Simms et Leo Murray (Éditions Critique)
  • Capitalism: A Love Story

    Mais um documentário do norte-americano Michael Moore, a denunciar exemplarmente o sonho americano, o capitalismo ultra-liberal e a democracia na terra do Tio Sam. Ler, ver ou ouvir declarações de anteriores presidentes, conferem a esta crítica uma perspectiva histórica. Nós, o povo, andamos a dormir em serviço.

  • Technopoly: The Surrender of Culture to Technology, by Neil Postman

    Generally, polling ignores what people know about the subjects they are queried on. In a culture that is not obsessed with measuring and rankings, this omission would probably be regarded as bizarre. But let us imagine what we would think of opinion polls if the questions came in pairs, indicating what people “believe” and what they “know” about the subject. If I may make up some figures, let us suppose we read the following: “The latest poll indicates that 72 percent of the American public believes we should withdraw economic aid from Nicaragua. Of those who expressed this opinion, 28 percent thought Nicaragua was in central Asia, 18 percent thought it was an island near New Zealand, and 27.4 percent believed that Africans should help themselves,’ obviously confusing Nicaragua with Nigeria. Moreover, of those polled, 61.8 percent did not know that we give economic aid to Nicaragua, and 23 percent did not know what ‘economic aid’ means.” Were pollsters inclined to provide such information, the prestige and power of polling would be considerably reduced. Perhaps even congressmen, confronted by massive ignorance, would invest their own understandings with greater trust.

    The fourth problem with polling is that it shifts the locus of responsibility between political leaders and their constituents. It is true enough that congressmen are supposed to represent the interests of their constituents. But it is also true that congressmen are expected to use their own judgment about what is in the public’s best interests. For this, they must consult their own experience and knowledge. Before the ascendance of polling, political leaders, though never indifferent to the opinions of their constituents, were largely judged on their capacity to make decisions based on such wisdom as they possessed; that is, political leaders were responsible for the decisions they made. With the refinement and extension of the polling process, they are under increasing pressure to forgo deciding anything for themselves and to defer to the opinions of the voters, no matter how ill-informed and shortsighted those opinions might be.

    excerpt of Technopoly - The Surrender of Culture to Technology, by Neil Postman
  • se non è vero, è ben trovato

  • Tempo de Raiva, de Pankaj Mishra

    Na sociedade religiosa, ou medieval, a ordem social, política e económica parecia imutável e os pobres e os oprimidos atribuíam o seu sofrimento aos acontecimentos fortuitos – a azar, doença, soberanos injustos – ou à vontade de Deus. A ideia de que o sofrimento podia ser aliviado e de que a felicidade podia ser criada pelos homens que mudassem radicalmente a ordem social data do século XVIII.

    Os ambiciosos filósofos do iluminismo tiveram a ideia de uma sociedade aperfeiçoável – um paraíso na terra, mais do que a vida depois da morte. Foi adoptada firmemente pelos revolucionários franceses – Saint Just, um dos mais fanáticos entre eles, fez a memorável observação de que “a ideia da felicidade é nova na Europa” – antes de se transformar na nova religião política do século XVIII. Disseminando-se no mundo pós-colonial no século XX, transformou-se numa fé associada à modernização imposta de cima para baixo. E depois ainda, transformou os modos tradicionais de vida e de fé – o budismo, além do islão – em modernas ideologias activistas.

    Entretanto, o impulso religioso não se limitara a desaparecer da Europa, como muitas vezes se supõe, perante as ideologias evidentemente laicas e mesmo antireligiosas e sob a pressão da modernização política e económica. A Revolução Francesa, escreveu Tocqueville, foi como o Islão ao “inundar a Terra com os seus soldados, apóstolos e mártires”. As décadas que a precederam foram, como salientou Herzen, “um dos períodos mais religiosos da História, consagrados pelo “Papa Voltaire”, um dos “fanáticos da sua religião da humanidade”.

    Os europeus tinham-se limitado a escolher novos valores absolutos – progresso, humanidade, a república – para substituir os da religião tradicional e da monarquia. Com o advento da modernidade, o núcleo metafísico e teológico do cristianismo começou a manifestar-se de forma diferente, achando-se muitas vezes no coração dos projectos modernos de redenção e de transcêndencia que precisava das suas próprias metafísica e teologia para guiarem o pensamento e a acção. A revolução ou a transformação social radical efectuada por indivíduos foram crescentemente vistas como a Segunda Vinda, a violência desencadeou um novo começo e, na aproximação final aos temas cristãos, da História começou a esperar-se que fornecesse o julgamento decisivo sobre a comunidade moral nascida dos homens.

  • O “sentido” do mundo sem sentido

    Independentemente da vaporosidade que envolve a definição de complot, é inegável que é próprio do relato “complotista” propôr uma visão geral do mundo que procura dar-lhe um sentido. Os teorizadores do complot encontram por detrás da aparente complexidade do mundo uma explicação simples, aquela de senhores escondidos que organizam o caos aparente. O “complotismo” permite aos seus adeptos retomar posse dum mundo que lhes escapa, de imputar a outros que não eles a origem dos males do mundo e encontrar respostas simples para questões complexas. No seu livro La condition post-moderne, editado em 1979, o filósofo Jean-François Lyotard anunciava o fim das “grandes metanarrativas modernas”. O declínio das ideologias, dos mitos nacionais, religiosos e revolucionários na realidade abriram passagem para estas novas grandes metanarrativas que são as teorias do complot e da conspiração. Na era das redes sociais, o “complotismo” fornece ao mundo um sentido não providenciado, à mesma escala, pelas ideologias, pelas religiões ou pelos mitos.

    excerto de Propagande, la manipulation de masse dans le monde contemporain, de David Colon (Belin)  - tradução selvagem feita por leitor improvável 
  • O valor da liberdade