
Na sociedade religiosa, ou medieval, a ordem social, política e económica parecia imutável e os pobres e os oprimidos atribuíam o seu sofrimento aos acontecimentos fortuitos – a azar, doença, soberanos injustos – ou à vontade de Deus. A ideia de que o sofrimento podia ser aliviado e de que a felicidade podia ser criada pelos homens que mudassem radicalmente a ordem social data do século XVIII.
Os ambiciosos filósofos do iluminismo tiveram a ideia de uma sociedade aperfeiçoável – um paraíso na terra, mais do que a vida depois da morte. Foi adoptada firmemente pelos revolucionários franceses – Saint Just, um dos mais fanáticos entre eles, fez a memorável observação de que “a ideia da felicidade é nova na Europa” – antes de se transformar na nova religião política do século XVIII. Disseminando-se no mundo pós-colonial no século XX, transformou-se numa fé associada à modernização imposta de cima para baixo. E depois ainda, transformou os modos tradicionais de vida e de fé – o budismo, além do islão – em modernas ideologias activistas.
Entretanto, o impulso religioso não se limitara a desaparecer da Europa, como muitas vezes se supõe, perante as ideologias evidentemente laicas e mesmo antireligiosas e sob a pressão da modernização política e económica. A Revolução Francesa, escreveu Tocqueville, foi como o Islão ao “inundar a Terra com os seus soldados, apóstolos e mártires”. As décadas que a precederam foram, como salientou Herzen, “um dos períodos mais religiosos da História, consagrados pelo “Papa Voltaire”, um dos “fanáticos da sua religião da humanidade”.
Os europeus tinham-se limitado a escolher novos valores absolutos – progresso, humanidade, a república – para substituir os da religião tradicional e da monarquia. Com o advento da modernidade, o núcleo metafísico e teológico do cristianismo começou a manifestar-se de forma diferente, achando-se muitas vezes no coração dos projectos modernos de redenção e de transcêndencia que precisava das suas próprias metafísica e teologia para guiarem o pensamento e a acção. A revolução ou a transformação social radical efectuada por indivíduos foram crescentemente vistas como a Segunda Vinda, a violência desencadeou um novo começo e, na aproximação final aos temas cristãos, da História começou a esperar-se que fornecesse o julgamento decisivo sobre a comunidade moral nascida dos homens.
