• Porque estamos a ficar mais burros

    A democratização do acesso a meios de comunicação de massa, possibilitando a expressão e difusão da opinião de tudo por todos, trouxe à tona uma espécie de lobotomia colaborativa. O meio continua a ser a mensagem, mas hoje o meio é a multidão, a cacofonia. Para fazer passar a mensagem num mundo onde a atenção rareia, importa comprimir e simplificar ao máximo. Treinar modelos de Inteligência Artificial sobre conteúdos de qualidade duvidosa, no mínimo, tem o potencial para aprofundar uma tendência degenerativa das nossas capacidades cognitivas. 

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  • Capitalism: A Love Story

    Mais um documentário do norte-americano Michael Moore, a denunciar exemplarmente o sonho americano, o capitalismo ultra-liberal e a democracia na terra do Tio Sam. Ler, ver ou ouvir declarações de anteriores presidentes, conferem a esta crítica uma perspectiva histórica. Nós, o povo, andamos a dormir em serviço.

  • se non è vero, è ben trovato

  • FUMAR faz BEM à sua saúde

    Este arquivo único conta um pedaço da história americana contemporânea, bem como da forma como se dá a volta à cabeça do consumidor

    A colecção Stanford Research into the Impact of Tobacco Advertising contém actualmente 62,553 anúncios ao tabaco. Descubra mais aqui

  • Pipocas com telemóvel, de David Marçal e Carlos Fiolhais

    Em 1981o criacionismo estava bem embalado e a ganhar terreno como tema científico nos Estados Unidos. Nesse ano uma lei do estado do Arkansas passou a obrigar a que, nas escolas públicas, fosse dedicado o mesmo tempo às “ciências da criação” que à teoria da evolução. Os conteúdos programáticos das “ciências da criação” estavam definidos na própria lei, não se fosse dar o caso de algum professor de ciências não as conhecer. Segundo este programa, o Universo, a energia e a vida teriam sido criados a partir do nada, a geologia da Terra deveria ser explicada pela ocorrência de um grande dilúvio global, os homens e os macacos teriam uma descendência distinta e a idade da Terra seria qualquer coisa entre 5700 e os 10000 anos. Podemos imaginar o embaraço de um pobre professor, que depois de falar da evolução apresentando as suas avassaladoras provas (registo fóssil, evolução das bactérias e resistência a antibióticos, etc.), começa por dizer na segunda parte da aula: “e, agora, vamos aos disparates obrigatórios por lei”. E não deixa de ser fascinante a relação intíma entre a lei e a ciência nalguns sítios dos Estados Unidos.

    Esta lei foi bastante contestada por vários grupos de pais, biólogos e congregações religiosas, que moveram uma acção judicial contra o Conselho de Educação do Estado do Arkansas. Em causa estava a violação de uma disposição constitucional, segundo a qual os estados norte-americanos não podem favorecer nenhuma religião. Um ano depois de ser aprovada, a lei, que, segundo os seus defensores, tinha como objectivo garantir o tratamento equilibrado entre a “ciência da criação” e a evolução, foi revogada. O juiz entendeu, e muito bem, que não havia equilíbrio possível, pois as “ciências da criação” não são ciência, mas sim convicções religiosas. Segundo esta decisão do juiz William Overton (1939-1987), no caso que ficou conhecido como “McLean versus Arkansas“, as características da ciência são estas:

    1. é guiada por leis naturais;

    2. tem que ser explicável de acordo com leis naturais;

    3. tem que ser verificável no mundo empírico;

    4. as suas conclusões são provisórias e não necessariamente a palavra final;

    5. pode ser refutada.

    Como é evidente, as “ciências da criação” não cumprem nenhum destes requisitos. Por exemplo, ideias como uma criação a partir do nada ou o grande dilúvio descrito no Génesis exigem a intervenção de uma entidade sobrenatural. Como já vimos, é absolutamente impossível conciliar as observações na Natureza com os acontecimentos mágicos da criação. O estudo da geologia da Terra mostra claramente que esta tem muito mais de 10000 anos (terá cerca de 45 mil milhões). A criação não é revista e melhorada face a novas observações ou resultados experimentais. Essa ideia não é refutável, é dogmática. Podemos ter fé e acreditar na criação divina, mas a criação não é ciência e não pode, por isso, ser ensinada nas aulas de ciência.

    excerto de Pipocas com telemóvel, de David Marçal e Carlos Fiolhais (Gradiva)

  • O discurso público na era do Entretenimento

    Devido ao anúncio televisivo ser a forma de comunicação pública singular mais proeminente na nossa sociedade, era inevitável que os americanos se acomodassem eles próprios à filosofia dos anúncios televisivos. Por “acomodar”, pretendo significar que nós o aceitamos como uma forma normal e plausível de discurso. Por “filosofia”, pretendo significar que o anúncio televisivo encerra em si certas assunções acerca da natureza da comunicação contrárias à de outros media, especialmente a palavra impressa. Para começar, o anúncio insiste numa brevidade de expressão sem precedentes. Até poderíamos dizer, instância. Um anúncio de sessenta segundos é prolixo; trinta segundos é mais longo do que a maioria; quinze a vinte segundos é a média. Esta é uma estrutura para comunicar desabrida e alarmante visto, como notado anteriormente, o anúncio atende às necessidades psicológicas do espectador. Por conseguinte não é apenas terapia. É terapia instantânea. De facto, apresenta uma teoria psicológica de axiomas únicos: o anúncio pede-nos para acreditar que todos os problemas têm solução, que são solucionados rapidamente, e que são solucionados rapidamente através das intervenções de tecnologia, técnicas e química. Isto é, obviamente, uma teoria absurda acerca das raízes do descontentamento, e parecerá assim a quem a ouvir ou ler. Mas um anúncio desdenha a exposição, pois leva tempo e convida ao argumento. Um anúncio é muito mau de facto se levar o espectador perguntar-se sobre a validade do ponto apresentado. É por isso que a maioria dos anúncios usam o dispositivo literário da pseudo parábola como forma de fazer o seu trabalho. Tais “parábolas” como “The ring around the colar”, “The Lost Traveler’s Checks” e “The Phone Call from the Son Far Away” não só têm um poder emocional irrefutável mas, como as parábolas bíblicas, são inequivocamente didáticas. O anúncio televisivo é acerca de produtos apenas no sentido em que a história de Jonas é acerca da anatomia de baleias, o que é mesmo que dizer, não é. O que é o mesmo que dizer mais, é acerca do modo como uma pessoa deve viver a sua vida. Adicionalmente, os anúncios têm a vantagem de utilizar símbolos visuais vívidos através dos quais podemos aprender mais facilmente as lições prestadas. Entre essas lições está que mensagens curtas e simples são preferíveis às longas e complexas; que a dramatização é preferível á exposição; que vender soluções é melhor do que confrontação com questões e problemas. Tais crenças têm naturalmente implicações na nossa orientação para com o discurso político; o que é o mesmo que dizer, poderemos começar a aceitar como normal certas assunções acerca do domínio político que ou derivam ou são amplificadas pelo anúncio televisivo. Por exemplo, uma pessoa que tenha visto um milhão de anúncios televisivos pode muito bem acreditar que todos os problemas políticos têm soluções rápidas através de medidas simples – ou deveriam ter. Ou que a linguagem complexa não deve ser confiável, e que todos os problemas deveriam prestar-se a uma expressão teatral. Ou que argumentar não é de bom tom, e apenas conduz a uma intolerável incerteza. Tal pessoa pode também começar a acreditar que não é necessário traçar qualquer linha entre a política e outras formas de vida social. Tal como o anúncio televisivo usa um atleta, um actor, um músico, um escritor, um cientista ou uma condessa para promover as virtudes de um produto fora dos seus domínios de conhecimento ou experiência, a televisão também liberta os políticos dos seus limitados domínios. Figuras políticas podem aparecer em qualquer lado, em qualquer hora, fazendo qualquer coisa, sem parecerem excêntricos, presunçosos, ou de algum modo deslocados. O que equivale a dizer, elas tornaram-se assimiladas na cultura televisiva geral como celebridades.

    Amusing ourselves to death: Public discourse in the age of show business, de Neil Postman (Penguin)  [tradução selvagem por leitor improvável]

    ***** fontes ligadas ao negócio dos livros confirmam a tradução em 2026, por um grande grupo editorial português *****