• Pipocas com telemóvel, de David Marçal e Carlos Fiolhais

    Em 1981o criacionismo estava bem embalado e a ganhar terreno como tema científico nos Estados Unidos. Nesse ano uma lei do estado do Arkansas passou a obrigar a que, nas escolas públicas, fosse dedicado o mesmo tempo às “ciências da criação” que à teoria da evolução. Os conteúdos programáticos das “ciências da criação” estavam definidos na própria lei, não se fosse dar o caso de algum professor de ciências não as conhecer. Segundo este programa, o Universo, a energia e a vida teriam sido criados a partir do nada, a geologia da Terra deveria ser explicada pela ocorrência de um grande dilúvio global, os homens e os macacos teriam uma descendência distinta e a idade da Terra seria qualquer coisa entre 5700 e os 10000 anos. Podemos imaginar o embaraço de um pobre professor, que depois de falar da evolução apresentando as suas avassaladoras provas (registo fóssil, evolução das bactérias e resistência a antibióticos, etc.), começa por dizer na segunda parte da aula: “e, agora, vamos aos disparates obrigatórios por lei”. E não deixa de ser fascinante a relação intíma entre a lei e a ciência nalguns sítios dos Estados Unidos.

    Esta lei foi bastante contestada por vários grupos de pais, biólogos e congregações religiosas, que moveram uma acção judicial contra o Conselho de Educação do Estado do Arkansas. Em causa estava a violação de uma disposição constitucional, segundo a qual os estados norte-americanos não podem favorecer nenhuma religião. Um ano depois de ser aprovada, a lei, que, segundo os seus defensores, tinha como objectivo garantir o tratamento equilibrado entre a “ciência da criação” e a evolução, foi revogada. O juiz entendeu, e muito bem, que não havia equilíbrio possível, pois as “ciências da criação” não são ciência, mas sim convicções religiosas. Segundo esta decisão do juiz William Overton (1939-1987), no caso que ficou conhecido como “McLean versus Arkansas“, as características da ciência são estas:

    1. é guiada por leis naturais;

    2. tem que ser explicável de acordo com leis naturais;

    3. tem que ser verificável no mundo empírico;

    4. as suas conclusões são provisórias e não necessariamente a palavra final;

    5. pode ser refutada.

    Como é evidente, as “ciências da criação” não cumprem nenhum destes requisitos. Por exemplo, ideias como uma criação a partir do nada ou o grande dilúvio descrito no Génesis exigem a intervenção de uma entidade sobrenatural. Como já vimos, é absolutamente impossível conciliar as observações na Natureza com os acontecimentos mágicos da criação. O estudo da geologia da Terra mostra claramente que esta tem muito mais de 10000 anos (terá cerca de 45 mil milhões). A criação não é revista e melhorada face a novas observações ou resultados experimentais. Essa ideia não é refutável, é dogmática. Podemos ter fé e acreditar na criação divina, mas a criação não é ciência e não pode, por isso, ser ensinada nas aulas de ciência.

    excerto de Pipocas com telemóvel, de David Marçal e Carlos Fiolhais (Gradiva)