
A burguesia portuguesa nunca foi nem é liberal. Pobre e fraca, precisou sempre dos favores do Estado. Os seus pedidos de condicionamento industrial, proteccionismo externo e contenção salarial atravessam a História contemporânea. A monarquia oitecentista e a Républica deram-lhe algumas migalhas; o Estado Novo satisfaria as suas aspirações, ao conceder-lhe aquilo que ela precisava, inclusivamente um chefe que a pusesse na ordem. Sem pudor, Salazar interveio em todas as esferas da vida nacional, da economia à cor do batom das professoras. Nunca se conhecera tamanha interferência estatal. Durante 50 anos, sem que tal facto a incomodasse minimamente, a direita viveu à sombra de um Estado tentacular. Só depois de 1974, o Estado lhe apareceu como um Leviatã. A explicação é simples: quando este deixou de servir exclusivamente os seus interesses, a direita deixou de amar o Estado.
excerto de Vida Moderna, de Maria Filomena Mónica (Quetzal)
