– Pum, estás morto! – dizíamos nós. – Pum, matei-te – dizíamos sempre isto. Brincávamos às guerras. Muitos em grupo, ou dois a dois, ou nos nossos sonhos solitários, era sempre guerra, sempre morte.
– Não brinquem dessa maneira – diziam os pais. – Podem ficar assim para sempre.
Grande perigo! O que nós mais queriamos era mesmo ser assim. Não precisávamos de brinquedos bélicos. Qualquer pau se transformava numa arma nas nossas mãos, e as pinhas eram bombas. Não me lembro de ter feito uma única vez chichi em criança, fosse ao ar livre ou na retrete, sem escolher um alvo, apontar para ele e bombardear. Aos cinco anos já era um perito em bombardeamento.
– Se todos brincarem assim – dizia a minha mãe – vai haver uma guerra.
E tinha razão. Houve mesmo.
excerto de Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist (Antígona)
Uma proibição tão forte só pode elevar-se contra um impulso igualmente poderoso. O que nenhuma alma humana deseja não precisa de ser proibido, exclui-se por si mesmo. A acentuação do mandamento “Não matarás” garante-nos justamente que descendemos de uma longuíssima série de gerações de animais, que tinham no sangue o prazer de matar, como talvez ainda nós próprios.
Baseado em factos históricos de um dos períodos mais negros da História da Humanidade, é gritante a mensagem final do filme, corporizada num dos personagens principais, o médico psiquiatra encarregue de observar altos dignatários do regime Nazi antes do julgamento: a História pode repetir-se. Mesmo nos lugares mais inusitados…
Parece que não se pode passar sem o inimigo. A figura do inimigo não pode ser abolida dos processos civilazicionais. A necessidade é congénita mesmo do homem brando e amigo da paz. Simplesmente, nestes casos, a imagem do inimigo é transferida de um objecto humano para uma força natural ou social, que de algum modo nos ameaça, e que tem de ser vencida, seja ela a exploração capitalista, a poluição ambiental, a fome do Terceiro Mundo. Mas, mesmo que estes sejam casos “virtuosos”, como nos recorda Brecht, também o ódio à injustiça desfigura o rosto.
A ética, portanto, é impotente face à necessidade ancestral de ter inimigos? Direi que a instância ética se sobrepõe, não quando finge que não existem inimigos, mas quando procuramos compreendê-los, colocar-nos no seu lugar. Não existe em Ésquilo um rancor contra os persas, cuja tragédia ele vive entre eles e do ponto de vista deles. César trata os gauleses com muito respeito, no máximo, apresenta-os um pouco choramingas de todas as vezes que se rendem, e Tácito admira os germanos, achando-os mesmo de boa compleição, limitando-se a lamentar a sua imundície e a sua renitência aos trabalhos fatigantes, porque não suportam o calor e a sede.
Procurar perceber outra coisa significa destruir-lhe o clichê, sem lhe negar ou lhe apagar a alteridade.
Mas sejamos realistas. Estas formas de compreensão do inimigo são próprias dos poetas, dos santos ou dos traidores. As nossas pulsões mais profundas são bem de outra ordem. Em 1968, foi publicado na América um Report from Iron Moutain on the possibility and desirability of peace, de um autor anónimo (alguém o terá mesmo atribuído a Galbraith). Tratava-se claramente de um panfleto contra a guerra, ou, pelo menos, de um lamento pessimista sobre a sua inevitabilidade. Porém, uma vez que para fazer a guerra é necessário um inimigo com que guerrear, o inelutável da guerra corresponde ao inelutável da caracterização e da construção do inimigo. Assim, neste panfleto, observa-se com extrema seriedade que a reconversão de toda a sociedade americana a uma situação de paz seria desastrosa, porque só a guerra constitui o fundamento do desenvolvimento harmónico das sociedades humanas. O seu esbanjamento organizado constitui uma válvula que regula o bom andamento da sociedade. Ela resolve o problema das provisões; é um volante. A guerra permite a uma comunidade reconhecer-se como “nação”; sem a contraposição da guerra, um governo não poderia sequer estabelecer a esfera da sua própria legitimidade; só a guerra assegura o equilíbrio entre as classes e permite acomodar e tirar proveito dos elementos anti-sociais. A paz produz instabilidade e delinquência juvenil; a guerra canaliza, do modo mais justo, todas as forças tumultuosas, dando-lhe statu. O exército é a última esperança dos deserdados e dos desadaptados; só o sistema de guerra, com o seu poder de vida e de morte, dispõe a sociedade a pagar um preço de sangue também por outras instituições que não dependem dela, como o desenvolvimento do automobilismo. Ecologicamente, a guerra fornece uma válvula de escape para as vidas em excesso; e se, até ao fim do século XIX, nela morriam apenas os membros mais válidos do corpo social (os guerreiros), enquanto se salvavam os incapazes, os sistemas actuais permitiram superar também este problema com os bombardeamentos sobre os centros civis. O bombardeamento limita o aumento da população melhor do que o infanticídio ritual, a castidade religiosa, a mutilação forçada ou o uso extensivo da pena de morte… Finalmente, é a guerra que permite o desenvolvimento de uma arte verdadeiramente “humanística”, em que predominam as situações de conflito.
Se é assim, a construção do inimigo deve ser intensiva e constante.
excerto de Construir o Inimigo, de Umberto Eco (Gradiva)