Crónicas de um livreiro, de Martin Latham

A serendipidade numa biblioteca ou numa livraria parece aleatória e caótica, mas os clientes da minha livraria falam frequentemente dela como a forma natural de navegar por entre os livros. Porquê? Um artigo de uma revista psicanalítica que li recentemente observava que o nosso inconsciente é “esquivo e promíscuo”, adjectivos que não gostaríamos de aplicar às nossas personalidades, mas que são aplicáveis aos nossos eus de biblioteca. Parece que a navegação desatenta é, de alguma forma, uma navegação atenta. Deixar à deriva a parte calculista da mente num armazém de livros com muitos compartimentos, com o seu subconsciente e consciente, as suas estantes e os seus andares superiores, os seus sotãos, as suas casas nas àrvores e os seus abrigos raramente visitados. As estantes da biblioteca espelham o eu não descoberto.

A navegação livre, tal como o mergulho livre e a escalada livre, são actividades não mediadas por uma interferência instituída; são respostas a um mundo sobrerregulamentado e comercializado. Navegar numa biblioteca está para navegar online (manipulado por algoritmos) como a escalada livre está para uma visita guiada.

excerto de Crónicas de um livreiro, de Martin Latham (Edições 70)

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