
– Esse foi o sonho “maldito”, que me deixou claro que eu nunca tivera qualquer filho. Soube-o tarde demais, quando o corpo já se me tinha mirrado, quando a espinha me saltou por cima da cabeça, quando eu já não conseguia andar. E, para cúmulo, a aldeia foi ficando deserta; todos se fizeram à estrada para novos rumos e com eles partiu também a caridade de que eu vivia. Sentei-me à espera da morte. Desde que te encontrámos, os meus ossos resolveram ficar quietos. “Ninguém dará por mim”, pensei. Sou algo que não estorva ninguém. Bem vês, nem sequer roubei espaço na terra. Enterraram-me aqui na tua própria sepultura e coube muito bem na cova dos teus braços. Aqui neste cantinho onde agora me vês. Apenas penso que deveria ter sido eu a abraçar-te. Ouves? Lá fora está a chover. Não sentes o bater da chuva?
– Sinto como se alguém caminhasse sobre nós.
– Vamos, deixa-te de medos. Já ninguém te pode assustar. Tenta pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.
excerto de Pedro Páramo, de Juan Rulfo (Cavalo de Ferro)
