
Na catedral de Šibenik, compro um rosário fosforescente e um livrinho intitulado A vida dos Santos para Principiantes.
Pela última vez, tento agarrar-me a essa fábula. Sei que é mais fácil ser crente do que ser ateu. O crente tem fórmulas pré-fabricadas, tem respostas, e a promessa do paraíso. Os dez mandamentos e os sete pecados capitais. O céu e a terra e o vale de lágrimas. Para o crente, está tudo bem definido e bem explicado. Ao passo que o ateu tem que contar com a filosofia e com a literatura, com a arte e com a biologia. Com o jazz e com a pintura. O não-crente tem que procurar tudo sozinho. É excitante, e ao mesmo tempo cansativo.
Caminho pelas ruas imaginando-me um apóstolo e interrogo Deus. Exploro regularmente as palmas das minhas mãos e acabo por encontrar nelas estigmas, detenho-me perante as velhas pedras e perante os pássaros, perante o céu e a terra… Perante a Virgem e o seu filho. Em vão. Não tenho em mim uma pitada de espiritualidade. Um catolicismo mais ligeiro, isso é coisa que não existe. Ou talvez sim, mas então há que procurá-lo entre os ortodoxos. Correctamente lida, a Bíblia é o mais poderoso libelo a favor do ateísmo jamais escrito.
Tenho para mim que nada foi posto sem razão nesta terra. Só preciso de descobrir porque é que estou aqui.
excerto de O livro das despedidas, de Velibor Čolić (Gradiva)
