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A vida contada a partir de um copo

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Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist

– Pum, estás morto! – dizíamos nós. – Pum, matei-te – dizíamos sempre isto. Brincávamos às guerras. Muitos em grupo, ou dois a dois, ou nos nossos sonhos solitários, era sempre guerra, sempre morte.
– Não brinquem dessa maneira – diziam os pais. – Podem ficar assim para sempre.
Grande perigo! O que nós mais queriamos era mesmo ser assim. Não precisávamos de brinquedos bélicos. Qualquer pau se transformava numa arma nas nossas mãos, e as pinhas eram bombas. Não me lembro de ter feito uma única vez chichi em criança, fosse ao ar livre ou na retrete, sem escolher um alvo, apontar para ele e bombardear. Aos cinco anos já era um perito em bombardeamento.
– Se todos brincarem assim – dizia a minha mãe – vai haver uma guerra.
E tinha razão. Houve mesmo.
excerto de Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist (Antígona) -
Where have all the flowers gone
Da banda sonora original desta literal perdição.Etiquetas: marlene dietrich -
The Third Man
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O monarca das sombras, de Javier Cercas

– O problema foi esse, a povoação dividir-se a meio e a convivência tornar-se muito difícil – disse Alejandro -. Olha, Javi, não há coisa que mais me irrite do que as interpretações equidistantes da guerra, as de 50%, essas que dizem que aquilo foi uma tragédia e que os dois lados tinham razão. É mentira. Aqui o que houve foi um golpe militar apoiado pela oligarquia e pela Igreja contra uma democracia. Claro que essa democracia não era perfeita, nada disso, e que no fim pouca gente acreditava nela e respeitava as suas regras, mas continuava a ser uma democracia; de modo que a razão política quem a tinha eram os republicanos. Ponto. Mas também me irrita muito a interpretação sectária, religiosa ou infantil da guerra, segundo a qual a República era o paraíso terrestre, todos os republicanos foram anjos que não mataram ninguém e todos os franquistas, demónios que não paravam de matar; é outra mentira… Repara, eu sempre percebi muito bem por que razão a minha família paterna, a tua, era franquista. No fim de contas eram eles quem punha e dispunha cá na terra; mas durante muito tempo me interroguei sobre as razões de o meu avô Alejandro, pai da minha mãe, um homem muito humilde, um pastor, um simples jornaleiro, se ter alistado como voluntário no exército de Franco, partindo para Madrid com o teu avô Paco e com outros tantos homens de Ibahernando nos primeiros dias da guerra. E agora, depois de muitos anos a fazer a mim próprio essa pergunta, percebo que a resposta é evidente: era um defensor da ordem; não aceitava nem conseguia compreender que não se apanhassem ou se queimassem as colheitas, que se queimassem olivais, que se invadissem herdades, que se roubassem animais, que se amedrontassem as pessoas. Achava mal, achava intolerável. O meu avô Alejandro era um homem traumatizado pela desordem e pela impossibilidade de conviver em paz, pelo medo. Tal como o teu avô Paco. Nenhum dos dois foi para a guerra por convicção política, por quererem mudar o mundo ou fazer a revolução nacional-socialista; tens de perceber isso, Javi. Foram para a guerra porque sentiram era a sua obrigação, porque não viram outra outra saída. E sabes o que ganharam com isso? Nada. Outros encheram o bandulho e levaram tudo, mas eles não. Não ganharam nada. O teu avô teve mesmo de sair da vila para conseguir manter a família, trabalhando na terra aqui e ali, de sol a sol, e o meu avô, já vês, toda a vida um modesto lavrador. Isso foi assim e aqui ninguém te dirá o contrário porque mentiria. Mas Manolo tem toda a razão: Ibahernando não é Barcelona ou Madrid. Para além dos confrontos resultantes do esforço da República em modernizar o país e de todas essas coisas que lemos nos livros de História e que são verdades, o que se passava aqui antes da guerra, como em tantos locais da Extremadura, da Andaluzia e de tantos outros sítios, era muito mais elementar: era uma situação de necessidade extrema que põe em confronto, como dizia Manolo, aqueles que não têm o que comer e aqueles que têm o que comer; têm muito pouco, o imprescíndivel, mas têm. E é aqui que a coisa começa a parecer-se com uma tragédia, porque os que passam fome têm razão para odiar os que conseguem comer; e os que conseguem comer têm razão ao recear aqueles que passam fome.
E uns e outros chegam assim a uma conclusão aterradora: ou eles ou nós. Se ganharem eles, matam-nos; se ganharmos nós, teremos de matá-los. Essa foi a situação impossível a que os responsáveis do país levararm esta pobre gente.excerto de O monarca das sombras, de Javier Cercas (Assírio & Alvim)
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Sobre o decoro

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