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Elogio da lentidão, de Lamberto Maffei

Giacomo Leopardi escrevia no Zibaldone que “a paciência é a mais heróica das virtudes porque não tem qualquer aparência heróica“.
A correria da vida moderna, o pensamento rápido, não têm, por natureza, paciência, qualidade graças à qual sabemos esperar antes de julgar e agir, contraposta à decisão rápida do fazer, que parece ter horror ao tempo que passa esquecendo-se de que este tem um percurso independente de nós. O progresso tecnológico e a sua difusão capilar produziram, para além de profundas mudanças sociais, uma verdadeira revolução do pensamento, ou seja, uma acelaração do tempo.
excerto de Elogio da lentidão, de Lamberto Maffei (Edições 70) -
O charlatão
Letra
Na ruela de má fama
Faz negócio um charlatão
Vende perfumes de lama
Anéis de ouro a um tostão
Enriquece o charlatãoNo beco mal afamado
As mulheres não têm marido
Um está preso, outro é soldado
Um está morto e outro f’rido
Outro em França anda perdidoÉ entrar, senhorias
A ver o que cá se lavra
Sete ratos, três enguias
Uma cabra abracadabraNa ruela de má fama
O charlatão vive à larga
Chegam-lhe toda a semana
Em camionetas de carga
Rezas doces, paga amargaNo beco dos malfadados
Os catraios passam fome
Têm os dentes enterrados
No pão que ninguém mais come
Os catraios passam fome(ao refrão)
Na travessa dos defuntos
Charlatões e charlatonas
Discutem dos seus assuntos
Repartem-se em quatro zonas
Instalados em poltronasP’rà rua saem toupeiras
Entra o frio nos buracos
Dorme a gente nas soleiras
Das casas feitas em cacos
Em troca de alguns patacos(ao refrão)
Entre a rua e o país
Vai o passo de um anão
Vai o rei que ninguém quis
Vai o tiro de um canhão
E o trono é do charlatãoEntre a rua e o país
Vai o passo de um anão
Vai o rei que ninguém quis
Vai o tiro de um canhão
E o trono é do charlatão(ao refrão)
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Construir o Inimigo, de Umberto Eco

Parece que não se pode passar sem o inimigo. A figura do inimigo não pode ser abolida dos processos civilazicionais. A necessidade é congénita mesmo do homem brando e amigo da paz. Simplesmente, nestes casos, a imagem do inimigo é transferida de um objecto humano para uma força natural ou social, que de algum modo nos ameaça, e que tem de ser vencida, seja ela a exploração capitalista, a poluição ambiental, a fome do Terceiro Mundo. Mas, mesmo que estes sejam casos “virtuosos”, como nos recorda Brecht, também o ódio à injustiça desfigura o rosto.
A ética, portanto, é impotente face à necessidade ancestral de ter inimigos? Direi que a instância ética se sobrepõe, não quando finge que não existem inimigos, mas quando procuramos compreendê-los, colocar-nos no seu lugar. Não existe em Ésquilo um rancor contra os persas, cuja tragédia ele vive entre eles e do ponto de vista deles. César trata os gauleses com muito respeito, no máximo, apresenta-os um pouco choramingas de todas as vezes que se rendem, e Tácito admira os germanos, achando-os mesmo de boa compleição, limitando-se a lamentar a sua imundície e a sua renitência aos trabalhos fatigantes, porque não suportam o calor e a sede.
Procurar perceber outra coisa significa destruir-lhe o clichê, sem lhe negar ou lhe apagar a alteridade.
Mas sejamos realistas. Estas formas de compreensão do inimigo são próprias dos poetas, dos santos ou dos traidores. As nossas pulsões mais profundas são bem de outra ordem. Em 1968, foi publicado na América um Report from Iron Moutain on the possibility and desirability of peace, de um autor anónimo (alguém o terá mesmo atribuído a Galbraith). Tratava-se claramente de um panfleto contra a guerra, ou, pelo menos, de um lamento pessimista sobre a sua inevitabilidade. Porém, uma vez que para fazer a guerra é necessário um inimigo com que guerrear, o inelutável da guerra corresponde ao inelutável da caracterização e da construção do inimigo. Assim, neste panfleto, observa-se com extrema seriedade que a reconversão de toda a sociedade americana a uma situação de paz seria desastrosa, porque só a guerra constitui o fundamento do desenvolvimento harmónico das sociedades humanas. O seu esbanjamento organizado constitui uma válvula que regula o bom andamento da sociedade. Ela resolve o problema das provisões; é um volante. A guerra permite a uma comunidade reconhecer-se como “nação”; sem a contraposição da guerra, um governo não poderia sequer estabelecer a esfera da sua própria legitimidade; só a guerra assegura o equilíbrio entre as classes e permite acomodar e tirar proveito dos elementos anti-sociais. A paz produz instabilidade e delinquência juvenil; a guerra canaliza, do modo mais justo, todas as forças tumultuosas, dando-lhe statu. O exército é a última esperança dos deserdados e dos desadaptados; só o sistema de guerra, com o seu poder de vida e de morte, dispõe a sociedade a pagar um preço de sangue também por outras instituições que não dependem dela, como o desenvolvimento do automobilismo. Ecologicamente, a guerra fornece uma válvula de escape para as vidas em excesso; e se, até ao fim do século XIX, nela morriam apenas os membros mais válidos do corpo social (os guerreiros), enquanto se salvavam os incapazes, os sistemas actuais permitiram superar também este problema com os bombardeamentos sobre os centros civis. O bombardeamento limita o aumento da população melhor do que o infanticídio ritual, a castidade religiosa, a mutilação forçada ou o uso extensivo da pena de morte… Finalmente, é a guerra que permite o desenvolvimento de uma arte verdadeiramente “humanística”, em que predominam as situações de conflito.
Se é assim, a construção do inimigo deve ser intensiva e constante.
excerto de Construir o Inimigo, de Umberto Eco (Gradiva)versão integral em italiano



