• Elogio da lentidão, de Lamberto Maffei

    Giacomo Leopardi escrevia no Zibaldone que “a paciência é a mais heróica das virtudes porque não tem qualquer aparência heróica“.

    A correria da vida moderna, o pensamento rápido, não têm, por natureza, paciência, qualidade graças à qual sabemos esperar antes de julgar e agir, contraposta à decisão rápida do fazer, que parece ter horror ao tempo que passa esquecendo-se de que este tem um percurso independente de nós. O progresso tecnológico e a sua difusão capilar produziram, para além de profundas mudanças sociais, uma verdadeira revolução do pensamento, ou seja, uma acelaração do tempo.

    excerto de Elogio da lentidão, de Lamberto Maffei (Edições 70)
  • Novas cartas portuguesas,

    Relatório Médico-Psiquiátrico sobre a estado mental de Mariana A.

    O Conselho Médico-Psiquiátrico do hospital de (…) foi incumbido de examinar o estado mental de Mariana A., que deu entrada na tarde de 16 de Agosto do ano de (…), neste hospital onde ficou internada.

    Mariana A., de 25 anos de idade, casada, nasceu em Beja e vive em Lisboa há cerca de 3 anos. Sabe-se que o pai se suicidiou e a mãe, senhora muito religiosa e austera, tem hoje 50 anos. Deste casamento nasceram três filhos: duas raparigas e um rapaz, vivendo a rapariga mais velha e ainda solteira com a mãe. A doente, até há três anos, mais precisamente até 20 de Maio de (..), data do seu casamento com António C., hoje em serviço de soberania no Ultramar, vivera também na casa materna. Segundo suas próprias informações, dava-se ela muito mal com a progenitora, preferindo esta claramente os outros dois filhos, em especial a filha mais velha, com quem se entende muito bem desde sempre.

    Estes dados tal como os que se seguem são importantes, na medida em que podem vir a esclarecer o estado mental da doente, ou as causas que a levaram ao acto que praticou, acrescentando-se desde já, nunca Mariana A. ter dado, segundo a família e atestados médicos, sintomas de alienação, ou tendência para aberrações sexuais. Tendo desde criança uma cuidada e rígida educação católica, fez seus estudos em colégios de freiras, cumprindo sempre com a rígida moral lá estabelecida. No entanto, a meio da tarde do dia 16 de Abril do corrente ano, Mariana A. deu entrada de urgência neste hospital, acopulada com um cão. A doente que se encontrava em estado de histeria, era acompanhada pelos sogros que prestaram as seguintes declarações:

    «Estávamos a repousar depois do almoço, quando ouvimos gritos e choros vindos do quarto da nossa nora. Quando conseguimos abrir a porta, não entendemos logo o que se passava, imaginando primeiro que Mariana estivesse a ser atacada pelo animal e como ela era tão sossegadinha, tão ajuizada, sempre fechada em casa escrever ao marido! Nós até lhe dizíamos que devia sair connosco para apanhar um pouco de ar… Claro que nunca a deixariamos sair sozinha ou mesmo com alguma amiga, aliás ela não chegou a fazer amigas em Lisboa, o nosso filho era muito metido consigo, gostava só de se dar com pessoas que conhecesse bem, em tudo que dizia respeito à mulher, então, era bastante esquisito, mas ela até parecia gostar disso. Muito ensimesmada desde que o nosso António foi para África, não dormia de noite, nem se alimentava o suficiente, estávamos até para a levar ao médico.»

    Mariana A., durante os primeiros dias recusou-se a fazer quaisquer declarações, chorando, gritando quando não estava sob o efeito de hipnóticos. Em seguida caiu num mutismo que parecia não ceder aos tratamentos a que era sujeita. Hoje já presta declarações, recusando-se no entanto a falar do que a levou a cometer o acto que a fez ser internada, não querendo igualmente referir-se ao marido, nem ao seu casamento. Caso se insista, parece deixar de ouvir, os olhos fitos num ponto fixo, assim podendo ficar horas. Comunicando-nos as enfermeiras que Mariana A. monologava bastantes vezes alto quando se julgava sozinha no quarto, recorreu-se a gravações. Transcrevemos adiante uma das que nos pareceu de maior interesse:

    «Tu nunca percebeste nunca. A minha mãe dizia é pecado a carne é luxúria e mesmo contigo o era. Foste sempre uma prisão alguma vez pensaste em me ouvir? E agora longe estes anos todos. Anos e anos e eu que fazia? Que fazia desses dias de todo esse tempo em que a única luz seriam as tuas cartas onde tudo me explicavas em pormenor te gabavas de coragem feitos de armas risco e das lutas que para ti são já divertimentos um jogo ou como se em caçadas se tornassem elas. Daí a fotografia que me enviaste onde apareces sorrindo e os teus pais mandaram encaixilhar e está na sala em cima do piano. É luxúria dizia minha mãe é pecado a carne e mesmo contigo eu sentia que o era quando gozava e só eu sei como me tentava retrair. E depois todos estes anos a pesarem-me no ventre todos estes pensamentos estes desejos estas ideias a tua mãe a vigiar-me o teu pai a ler o que eu te escrevia e o que tu me mandavas dizer. E tu como uma prisão sempre como uma prisão e eu a criar-te horror a criar-te todo este asco todo este enorme medo.»

    Resumo:

    1.- Mariana A. não é alienada.

    2.- Não apresenta qualquer indício de tara sexual.

    3.- O acto que aqui a trouxe pode ser atribuído apenas a um grave desequilíbrio de ordem nervosa, cujas causas devem ser aprofundadas a fim de se poder tentar curar a doente.

    Hospital de (…), 30 de Dezembro de (…).

    excerto de Novas cartas portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (Dom Quioxote)
  • O charlatão

    Letra

    Na ruela de má fama
    Faz negócio um charlatão
    Vende perfumes de lama
    Anéis de ouro a um tostão
    Enriquece o charlatão

    No beco mal afamado
    As mulheres não têm marido
    Um está preso, outro é soldado
    Um está morto e outro f’rido
    Outro em França anda perdido

    É entrar, senhorias
    A ver o que cá se lavra
    Sete ratos, três enguias
    Uma cabra abracadabra

    Na ruela de má fama
    O charlatão vive à larga
    Chegam-lhe toda a semana
    Em camionetas de carga
    Rezas doces, paga amarga

    No beco dos malfadados
    Os catraios passam fome
    Têm os dentes enterrados
    No pão que ninguém mais come
    Os catraios passam fome

    (ao refrão)

    Na travessa dos defuntos
    Charlatões e charlatonas
    Discutem dos seus assuntos
    Repartem-se em quatro zonas
    Instalados em poltronas

    P’rà rua saem toupeiras
    Entra o frio nos buracos
    Dorme a gente nas soleiras
    Das casas feitas em cacos
    Em troca de alguns patacos

    (ao refrão)

    Entre a rua e o país
    Vai o passo de um anão
    Vai o rei que ninguém quis
    Vai o tiro de um canhão
    E o trono é do charlatão

    Entre a rua e o país
    Vai o passo de um anão
    Vai o rei que ninguém quis
    Vai o tiro de um canhão
    E o trono é do charlatão

    (ao refrão)

  • Construir o Inimigo, de Umberto Eco

    Parece que não se pode passar sem o inimigo. A figura do inimigo não pode ser abolida dos processos civilazicionais. A necessidade é congénita mesmo do homem brando e amigo da paz. Simplesmente, nestes casos, a imagem do inimigo é transferida de um objecto humano para uma força natural ou social, que de algum modo nos ameaça, e que tem de ser vencida, seja ela a exploração capitalista, a poluição ambiental, a fome do Terceiro Mundo. Mas, mesmo que estes sejam casos “virtuosos”, como nos recorda Brecht, também o ódio à injustiça desfigura o rosto.

    A ética, portanto, é impotente face à necessidade ancestral de ter inimigos? Direi que a instância ética se sobrepõe, não quando finge que não existem inimigos, mas quando procuramos compreendê-los, colocar-nos no seu lugar. Não existe em Ésquilo um rancor contra os persas, cuja tragédia ele vive entre eles e do ponto de vista deles. César trata os gauleses com muito respeito, no máximo, apresenta-os um pouco choramingas de todas as vezes que se rendem, e Tácito admira os germanos, achando-os mesmo de boa compleição, limitando-se a lamentar a sua imundície e a sua renitência aos trabalhos fatigantes, porque não suportam o calor e a sede.

    Procurar perceber outra coisa significa destruir-lhe o clichê, sem lhe negar ou lhe apagar a alteridade.

    Mas sejamos realistas. Estas formas de compreensão do inimigo são próprias dos poetas, dos santos ou dos traidores. As nossas pulsões mais profundas são bem de outra ordem. Em 1968, foi publicado na América um Report from Iron Moutain on the possibility and desirability of peace, de um autor anónimo (alguém o terá mesmo atribuído a Galbraith). Tratava-se claramente de um panfleto contra a guerra, ou, pelo menos, de um lamento pessimista sobre a sua inevitabilidade. Porém, uma vez que para fazer a guerra é necessário um inimigo com que guerrear, o inelutável da guerra corresponde ao inelutável da caracterização e da construção do inimigo. Assim, neste panfleto, observa-se com extrema seriedade que a reconversão de toda a sociedade americana a uma situação de paz seria desastrosa, porque só a guerra constitui o fundamento do desenvolvimento harmónico das sociedades humanas. O seu esbanjamento organizado constitui uma válvula que regula o bom andamento da sociedade. Ela resolve o problema das provisões; é um volante. A guerra permite a uma comunidade reconhecer-se como “nação”; sem a contraposição da guerra, um governo não poderia sequer estabelecer a esfera da sua própria legitimidade; só a guerra assegura o equilíbrio entre as classes e permite acomodar e tirar proveito dos elementos anti-sociais. A paz produz instabilidade e delinquência juvenil; a guerra canaliza, do modo mais justo, todas as forças tumultuosas, dando-lhe statu. O exército é a última esperança dos deserdados e dos desadaptados; só o sistema de guerra, com o seu poder de vida e de morte, dispõe a sociedade a pagar um preço de sangue também por outras instituições que não dependem dela, como o desenvolvimento do automobilismo. Ecologicamente, a guerra fornece uma válvula de escape para as vidas em excesso; e se, até ao fim do século XIX, nela morriam apenas os membros mais válidos do corpo social (os guerreiros), enquanto se salvavam os incapazes, os sistemas actuais permitiram superar também este problema com os bombardeamentos sobre os centros civis. O bombardeamento limita o aumento da população melhor do que o infanticídio ritual, a castidade religiosa, a mutilação forçada ou o uso extensivo da pena de morte… Finalmente, é a guerra que permite o desenvolvimento de uma arte verdadeiramente “humanística”, em que predominam as situações de conflito.

    Se é assim, a construção do inimigo deve ser intensiva e constante.

    excerto de Construir o Inimigo, de Umberto Eco (Gradiva)

    versão integral em italiano