
A História mostra que não existe uma forma natural de as partes do sistema mundial se organizarem. Nem o sistema possui qualquer propensão inata para se conservar estático, nem as partes para pernanecerem num determinado padrão. Muitas vezes no passado o pêndulo do poder ficou exactamente equilibrado entre dois polos no sistema e nenhuma necessidade histórica inerente ditava que alguém conquistasse uma posição hegemónica. O facto de a Europa se ter destacado no século XVI, substituindo o Médio Oriente como o cerne do sistema mundial, não pode ser usado para defender que apenas a cultura e as instituições europeias poderiam ter sucesso. De facto, como argumenta um historiador, a Europa nem sequer teve de inventar o sistema, uma vez que o trabalho de base essencial já estava disponível no século XIII, quando os europeus se encontravam ainda a viver numa remota periferia. Bastava mudar as regras e reorganizar as peças. Em última análise, o facto de Lisboa, Amesterdão e Londres se terem sucessivamente tornado a pedra angular do sistema foi um facto contingente. Poderia facilmente ter sido o Cairo, Tabriz ou Hangchou.
excerto de O despertar da Euroásia - Em busca da Nova Ordem Mundial, de Bruno Maçães (Temas & Debates)
