
De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais do Estado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagenárias sul-africanas que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas atrizes de revista a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadas por um acordeão exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente de orgulho, cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquanto o tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num êstase mudo. O capelão, contrito, descia as pálpebras virgens sobre o breviário da sopa.
– Quarenta anos a acumular esperma — calculava o capitão idoso a medi-lo de longe. — Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na água benta dos tomates.
excerto de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes




