Khashdrahr stopped translating and frowned perplexedly. “Please, this average man, there is no equivalent in our language, I’m afraid”.
“You know”, said Halyard, “the ordinary man, like, well, anybody – these men working back on the bridge, the little man, not brilliant but good-hearted, plain, ordinary, everyday kind of person”.
Khashdrahr translated.
“Aha”, said the Shah, nodding, “Takaru“.
“What did he say?”
“Takaru“, said Khashdrahr. “Slave“.
“No Takaru”, said Halyard, speaking directly to the Shah. “Citizen“.
He grinned happily, “Takaru-Citizen, Citizen-Takaru“.
“No Takaru!”, said Halyard.
Khashdrahr shrugged. “In the Shah’s land there are only the Eliteand the Takaru“.
No velho sistema, cada líder político apenas dispunha de instrumentos muito limitados para segmentar os seus eleitores. Podia enviar mensagens específicas a certas categorias de base – os sindicatos, os pequenos empresários, e as donas de casa -, mas para fazer isso tinha de fazê-lo publicamente. Quem queria criar um consenso maioritário – e não apenas de nicho – era obrigado a dirigir-se ao eleitor médio com mensagens moderadas, sobre as quais podia convergir o maior número possível de pessoas.
O jogo democrático tradicional tinha, portanto, uma tendência centrípeta: ganhava aquele que conseguisse ocupar o centro do tabuleiro político.
O mundo dos físicos funciona de maneira diferente. Aqui, para criar consenso, o facto de se aperfeiçoar um projecto político capaz de convencer toda a gente conta muito menos, uma vez que, como profetizava Michel Foucault, há quatro décadas, a multidão, massa compacta, foi abolida em prol de uma reunião indivíduos separados, cada um dos quais pode ser seguido nos minímos detalhes.
Numa tal situação, o objectivo é agora identificar os temas que contam para cada um, para seguidamente os explorar através de uma campanha de comunicação individualizadada. A ciência dos físicos permite que campanhas contraditórias coexistam em paz, sem nunca se encontrarem, até ao momento da votação. No novo mundo, a política torna-se centrífuga.Já não se trata de unir os eleitores em torno do menor denominador comum mas, pelo contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de pequenos grupos para depois os adicionar – ainda que à sua revelia. As inevitáveis contradições contidas nas mensagens dirigidas a uns e a outros permanecerão em todo o caso invisíveis aos olhos dos media e do conjunto do público.
O raciocínio aplica-se igualmente bem às comunidades mais inofensivas, os coleccionadores de selos e os apaixonados de kitesurf, e às mais perigosas, os fanáticos religiosos e os membros do Ku Klux Klan. Se o movimento convergente da velha política marginalizava os extremistas, a lógica centrífuga da política dos físicos, valoriza-os. Não os coloca no centro, porque o centro já não existe, mas oferece-lhes um espaço e respostas.
Uma dinâmica económica que segue a mesma lógica também vem reforçar esta tendência. Até há poucos anos, observou Nick Cohen na Spectator, ser-se um extremista em política não era cómodo. Para se ser maoísta ou nazi, era preciso dispor de uma fortuna familiar como Oswald Mosley ou então resignar-se a viver de privações. Hoje em dia, pelo contrário, a Internet abriu um mundo de oportunidades económicas para os propagadores de ódio. O propagandista antimuçulmano Tommy Robinson ganha quatro mil libras por mês graças ao tráfego gerado pelos seus sermões incendiários e recolhe cem mil num sítio de crowdfunding para equipar um estúdio radiofónico. Ao invés, a lógica dos novos media, que colocam a tónica nos conteúdos capazes de suscitar as emoções mais fortes, cria obstáculos, paraos pensadores moderados que têm mais dificuldade em gerar tráfego na Internet e, consequentemente, rendimentos satisfatórios para eles e para os media que os albergam.
Num ambiente deste tipo, o comportamento dos líderes e dos partidos tende a modificar-se. Mesmo para os partidos “clássicos”, a motivação para se elaborar uma plantaforma coerente e uma mensagem única capaz de interceptar o eleitor médio vai diminuindo, enquanto cresce a tentação de multiplicar os sinais, mesmo se contraditórios, para captar os grupos mais díspares. Como se observa muito claramente no caso do Movimento 5 Estrelas, o líder e o partido transformam-se num algoritmo, sem linha própria definida, mas capaz de interpretar os pedidos mais diversos graças à bússula dos dados. Durante a campanha de 2016, a matemática Cathy O’Neil observou que, além do uso de dados, o próprio Trump se comportava no fundo como uma espécie de algoritmo em carne e osso, tuitando e bombardeando o público com comentários de todos os tipos para em seguida os modificar de acordo com as suas reacções.
Como o Revizor de Gogol, o líder político torna-se “um homem oco”: “Os temas da sua conversa são-lhe dados por aqueles que o interrogam: são eles que lhes põem as palavras na boca e criam a conversa.” O único valor acrescentado que se lhe pede é o do espectacular. “Never be boring” é a única regra que Trump segue rigorosamente, produzindo cada dia um golpe de teatro, como o cliffhanger de uma série televisiva que obriga o público a ficar colado ao écran para ver o episódio seguinte. No fundo, o mérito histórico de Trump foi sobretudo o de compreender que a campanha presidencial era um programa televisivo muito medíocre. E isso ainda hoje é válido para a versão Donald de Commander in Chief. Beppe Grillo também aplicou o mesmo método durante anos. Os seus meetings eram one man shows nos quais o público participava como se estivesse no teatro: as pessoas indignavam-se, às vezes comoviam-se, mas acima de tudo riam-se bastante. E tudo isso gratuitamente…
Hoje em dia, todos os príncipes do movimento populista mundial aplicam o mesmo princípio. Cada dia traz a reviravolta: os tweets chocantes de Trump, as encenações teatrais de Nigel Farage, os posts no Facebook de Matteo Salvini; mal temos tempo para comentar um acontecimento porque já foi eclipsado por outro. No seio desse processo, a coerência e a veracidade contam muito menos do que a magnitude da ressonância, que abrange todo o espectro das opiniões – partindo daquelas que ainda há pouco se reivindicavam da esquerda radical para as que pertencem à extrema-direita. Sem nenhuma intenção de as moderar, nem de as sintetizar, mas pelo contrário radicalizando-as para em seguida as adicionar, segundo a lógica do estatístico que, para encontrar a temperatura média óptima, enfia a cabeça no forno e os pés no congelador.
Muito antes da Internet e das redes sociais, Peter Gay contou de maneira magistral a crise da Républica de Weimar como um afundamento do centro do tabuleiro político no decurso do qual os partidos moderados do centro foram substítuidos pelos extremistas. Hoje em dia, os novos instrumentos digitais apenas vêm acelarar e reforçar a mesma tendência, que se manifesta em todos os períodos de crise e desligitimação das classes dirigentes.
Estamos assim a redescobrir a maneira como as minorias intolerantes podem determinar o curso da História. “Como se chega ao ponto de certos livros serem proibidos (ou queimados…)?, pergunta Nassim Nicholas Taleb. Certamente não é por eles ofenderem o comum dos mortais – a maioria das pessoas é passiva e não atribui grande importância a isso, ou pelo menos não a suficiente para pedir que eles sejam proibidos. De acordo com a experiência, bastam alguns activistas motivados para proibir certos livros, ou colocar na lista negra certas pessoas.” Isso acontece porque uma minoria intolerante, mesmo se restrita, é totalmente inflexível e não pode mudar de ideias, ao passo que uma parte significativa dos outros é mais maleável. Desde que haja boas condições, e caso o preço não seja demasiado elevado, esta última pode decidir alinhar-se com a minoria intolerante, dando razão, já agora, a John Stuart Mill, segundo o qual “para triunfar, o mal apenas precisa da inacção dos homens de bem”.
excerto de Os engenheiros do caos, de Giuliano da Empoli (Gradiva)