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Interoperabilidade precisa-se

Quer enviar uma mensagem escrita, uma foto, um video, fazer uma chamada telefónica ou uma video-chamada. Provavelmente irá utilizar o WhatsApp, a aplicação de Instant Messaging (IM) mais popular no mundo inteiro.
Infelizmente, os utilizadores do WhatsApp só podem comunicar entre si.
Já imaginou ser cliente da Vodafone e só poder fazer chamadas telefónicas para outros clientes Vodafone? Ou ter uma conta de correio electrónico no Gmail e não poder enviar mails, por exemplo, para contas Outlook ou Hotmail? Parece ridículo, certo?
No caso do WhatsApp, não achamos isso porque o mercado de IM está muitissímo concentrado. Ridículo é não ter WhatsApp. The winner takes it all.
Sem um protocolo comum a garantir que todos podem falar com todos (interoperabilidade), como o SMTP (Simple Mail Transfer Protocol) no caso do correio electrónico, acabamos por ficar reféns das grandes plantaformas de Instant Messaging (IM). De caminho, entregamos-lhes um enorme poder e somas astronómicas de capital financeiro. Para além de gerar conteúdo gratuitamente para treino de modelos de IA. [A mesma crítica pode ser feita às redes sociais, também desprovidas de interoperabilidade.]
Isso é, parece-me, ainda mais ridículo.
E, nos tempos conturbados da nova geopolítica, contraproducente.
O que fazer, então?
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Outro “eleito” que também fala com Jesus
D’you see the face on the TV screen
Coming at you every Sunday?
See the face on the billboard?
Well that man is me
On the cover of a magazine
There’s no question why I’m smiling
You buy a piece of paradise, you buy a piece of meI’ll get you everything you wanted
I’ll get you everything you need
You don’t need to believe in hereafter
Just believe in me‘Cause Jesus. He knows me and He knows I’m right
I’ve been talking to Jesus all my life
Oh yes, He knows me and He knows I’m right
Well, he’s been telling me everything is alrightI believe in the family
With my ever-loving wife beside me
But she don’t know about my girlfriend
Or the man I met last night
Do you believe in God?
‘Cause that is what I’m selling
And if you wanna get to heaven
Well, I’ll see you rightYou won’t even have to leave your house
Or get out of your chair
You don’t even have to touch that dial
‘Cause I’m everywhereJesus. He knows me and He knows I’m right
I’ve been talking to Jesus all my life
Oh yes, He knows me and He knows I’m right
Well, he’s been telling me everything’s gonna be alrightWon’t find me practising what I’m preaching
Won’t find me making no sacrifice
But I can get you a pocketful of miracles
If you promise to be good, try to be nice
God will take good care of you
Well, just do as I say, don’t do as I doWell, I’m counting my blessings
As I’ve found true happiness
‘Cause I’m a-getting richer day by day
You can find me in the phone book
Just call my toll-free number
You can do it anyway you want
Just do it right awayAnd there’ll be no doubt in your mind
You’ll believe everything I’m saying
If you wanna get closer to Him
Get on your knees and start paying‘Cause Jesus. He knows me and He knows I’m right
I’ve been talking to Jesus all my life
Oh yes, He knows me and He knows I’m right
Well, he’s been telling me everything’s gonna be alright‘Cause Jesus. He knows me and He knows I’m right
(Jesus. He knows, He knows)
Ooh, yes, He knows me and He knows I’m right
(Jesus. He knows, He knows)
I’ve been talking to Jesus all my life
Well, he’s been telling me everything’s gonna be alright -
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Os pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e de comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços para poderem ser calçados pelos donos, de preferência rotos para poderem vestir camisas velhas que se salvavam desse modo de um destino natural de esfregões, de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina) deviam possuir outras caracteristicas imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbados e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a que pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria.
– Eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.
O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente. No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes e deslocavam-se piamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à estrada militar, a fim de distribuirem numa pompa de reis magos peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas das suas barracas alvoroçados e gratos e as minhas tias preveniam-me logo enxotando-os com as costas da mão
– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer moedas aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente coitada não tem a noção do dinheiro)
de forma deletéria e irresponsável. O pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar em casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma, recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
– Agora veja lá não gaste tudo em vinho
O atrevido lhe respondeu malcriadíssimo.
– Não minha senhora vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar a razão destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros.
– O que é que o menino quer esta gente é assim
E eu entendi que ser pobre, mais que um destino, era uma espécie de vocação como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
A amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o Padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um cruxifico de mogno. O Padre Cruz era um sujeito chupado de batina e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e a partir da altura em que me revelaram este milagre tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
E eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão. Na minha ideia o Padre Cruz e a Sãozinha eram casados tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado Almanaque da Sãozinha se narravam em comunhão de bens os milagres de ambos, que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos de incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam e creio que foi por essa época que principiei a olhar com afecto crescente uma gravura poeirenta atirada para o sotão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.
excerto de As crónicas, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)Comentar:




