• Nuremberg

    trailer

    Baseado em factos históricos de um dos períodos mais negros da História da Humanidade, é gritante a mensagem final do filme, corporizada num dos personagens principais, o médico psiquiatra encarregue de observar altos dignatários do regime Nazi antes do julgamento: a História pode repetir-se. Mesmo nos lugares mais inusitados…

  • Os engenheiros do caos, de Giuliano da Empoli

    No velho sistema, cada líder político apenas dispunha de instrumentos muito limitados para segmentar os seus eleitores. Podia enviar mensagens específicas a certas categorias de base – os sindicatos, os pequenos empresários, e as donas de casa -, mas para fazer isso tinha de fazê-lo publicamente. Quem queria criar um consenso maioritário – e não apenas de nicho – era obrigado a dirigir-se ao eleitor médio com mensagens moderadas, sobre as quais podia convergir o maior número possível de pessoas.

    O jogo democrático tradicional tinha, portanto, uma tendência centrípeta: ganhava aquele que conseguisse ocupar o centro do tabuleiro político.

    O mundo dos físicos funciona de maneira diferente. Aqui, para criar consenso, o facto de se aperfeiçoar um projecto político capaz de convencer toda a gente conta muito menos, uma vez que, como profetizava Michel Foucault, há quatro décadas, a multidão, massa compacta, foi abolida em prol de uma reunião indivíduos separados, cada um dos quais pode ser seguido nos minímos detalhes.

    Numa tal situação, o objectivo é agora identificar os temas que contam para cada um, para seguidamente os explorar através de uma campanha de comunicação individualizadada. A ciência dos físicos permite que campanhas contraditórias coexistam em paz, sem nunca se encontrarem, até ao momento da votação. No novo mundo, a política torna-se centrífuga. Já não se trata de unir os eleitores em torno do menor denominador comum mas, pelo contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de pequenos grupos para depois os adicionar – ainda que à sua revelia. As inevitáveis contradições contidas nas mensagens dirigidas a uns e a outros permanecerão em todo o caso invisíveis aos olhos dos media e do conjunto do público.

    O raciocínio aplica-se igualmente bem às comunidades mais inofensivas, os coleccionadores de selos e os apaixonados de kitesurf, e às mais perigosas, os fanáticos religiosos e os membros do Ku Klux Klan. Se  o movimento convergente da velha política marginalizava os extremistas, a lógica centrífuga da política dos físicos, valoriza-os. Não os coloca no centro, porque o centro já não existe, mas oferece-lhes um espaço e respostas.

    Uma dinâmica económica que segue a mesma lógica também vem reforçar esta tendência. Até há poucos anos, observou Nick Cohen na Spectator, ser-se um extremista em política não era cómodo. Para se ser maoísta ou nazi, era preciso dispor de uma fortuna familiar como Oswald Mosley ou então resignar-se a viver de privações. Hoje em dia, pelo contrário, a Internet abriu um mundo de oportunidades económicas para os propagadores de ódio. O propagandista antimuçulmano Tommy Robinson ganha quatro mil libras por mês graças ao tráfego gerado pelos seus sermões incendiários e recolhe cem mil num sítio de crowdfunding para equipar um estúdio radiofónico. Ao invés, a lógica dos novos media, que colocam a tónica nos conteúdos capazes de suscitar as emoções mais fortes, cria obstáculos, para os pensadores moderados que têm mais dificuldade em gerar tráfego na Internet e, consequentemente, rendimentos satisfatórios para eles e para os media que os albergam.

    Num ambiente deste tipo, o comportamento dos líderes e dos partidos tende a modificar-se. Mesmo para os partidos “clássicos”, a motivação para se elaborar uma plantaforma coerente e uma mensagem única capaz de interceptar o eleitor médio vai diminuindo, enquanto cresce a tentação de multiplicar os sinais, mesmo se contraditórios, para captar os grupos mais díspares. Como se observa muito claramente no caso do Movimento 5 Estrelas, o líder e o partido transformam-se num algoritmo, sem linha própria definida, mas capaz de interpretar os pedidos mais diversos graças à bússula dos dados. Durante a campanha de 2016, a matemática Cathy O’Neil observou que, além do uso de dados, o próprio Trump se comportava no fundo como uma espécie de algoritmo em carne e osso, tuitando e bombardeando o público com comentários de todos os tipos para em seguida os modificar de acordo com as suas reacções.

    Como o Revizor de Gogol, o líder político torna-se “um homem oco”: “Os temas da sua conversa são-lhe dados por aqueles que o interrogam: são eles que lhes põem as palavras na boca e criam a conversa.” O único valor acrescentado que se lhe pede é o do espectacular. “Never be boring” é a única regra que Trump segue rigorosamente, produzindo cada dia um golpe de teatro, como o cliffhanger de uma série televisiva que obriga o público a ficar colado ao écran para ver o episódio seguinte. No fundo, o mérito histórico de Trump foi sobretudo o de compreender que a campanha presidencial era um programa televisivo muito medíocre. E isso ainda hoje é válido para a versão Donald de Commander in Chief. Beppe Grillo também aplicou o mesmo método durante anos. Os seus meetings eram one man shows nos quais o público participava como se estivesse no teatro: as pessoas indignavam-se, às vezes comoviam-se, mas acima de tudo riam-se bastante. E tudo isso gratuitamente…

    Hoje em dia, todos os príncipes do movimento populista mundial aplicam o mesmo princípio. Cada dia traz a reviravolta: os tweets chocantes de Trump, as encenações teatrais de Nigel Farage, os posts no Facebook de Matteo Salvini; mal temos tempo para comentar um acontecimento porque já foi eclipsado por outro. No seio desse processo, a coerência e a veracidade contam muito menos do que a magnitude da ressonância, que abrange todo o espectro das opiniões – partindo daquelas que ainda há pouco se reivindicavam da esquerda radical para as que pertencem à extrema-direita. Sem nenhuma intenção de as moderar, nem de as sintetizar, mas pelo contrário radicalizando-as para em seguida as adicionar, segundo a lógica do estatístico que, para encontrar a temperatura média óptima, enfia a cabeça no forno e os pés no congelador.

    Muito antes da Internet e das redes sociais, Peter Gay contou de maneira magistral a crise da Républica de Weimar como um afundamento do centro do tabuleiro político no decurso do qual os partidos moderados do centro foram substítuidos pelos extremistas. Hoje em dia, os novos instrumentos digitais apenas vêm acelarar e reforçar a mesma tendência, que se manifesta em todos os períodos de crise e desligitimação das classes dirigentes. 

    Estamos assim a redescobrir a maneira como as minorias intolerantes podem determinar o curso da História. “Como se chega ao ponto de certos livros serem proibidos (ou queimados…)?, pergunta Nassim Nicholas Taleb. Certamente não é por eles ofenderem o comum dos mortais – a maioria das pessoas é passiva e não atribui grande importância a isso, ou pelo menos não a suficiente para pedir que eles sejam proibidos. De acordo com a experiência, bastam alguns activistas motivados para proibir certos livros, ou colocar na lista negra certas pessoas.” Isso acontece porque uma minoria intolerante, mesmo se restrita, é totalmente inflexível e não pode mudar de ideias, ao passo que uma parte significativa dos outros é mais maleável. Desde que haja boas condições, e caso o preço não seja demasiado elevado, esta última pode decidir alinhar-se com a minoria intolerante, dando razão, já agora, a John Stuart Mill, segundo o qual “para triunfar, o mal apenas precisa da inacção dos homens de bem”.

    excerto de Os engenheiros do caos, de Giuliano da Empoli (Gradiva)

  • O discurso público na era do Entretenimento

    Devido ao anúncio televisivo ser a forma de comunicação pública singular mais proeminente na nossa sociedade, era inevitável que os americanos se acomodassem eles próprios à filosofia dos anúncios televisivos. Por “acomodar”, pretendo significar que nós o aceitamos como uma forma normal e plausível de discurso. Por “filosofia”, pretendo significar que o anúncio televisivo encerra em si certas assunções acerca da natureza da comunicação contrárias à de outros media, especialmente a palavra impressa. Para começar, o anúncio insiste numa brevidade de expressão sem precedentes. Até poderíamos dizer, instância. Um anúncio de sessenta segundos é prolixo; trinta segundos é mais longo do que a maioria; quinze a vinte segundos é a média. Esta é uma estrutura para comunicar desabrida e alarmante visto, como notado anteriormente, o anúncio atende às necessidades psicológicas do espectador. Por conseguinte não é apenas terapia. É terapia instantânea. De facto, apresenta uma teoria psicológica de axiomas únicos: o anúncio pede-nos para acreditar que todos os problemas têm solução, que são solucionados rapidamente, e que são solucionados rapidamente através das intervenções de tecnologia, técnicas e química. Isto é, obviamente, uma teoria absurda acerca das raízes do descontentamento, e parecerá assim a quem a ouvir ou ler. Mas um anúncio desdenha a exposição, pois leva tempo e convida ao argumento. Um anúncio é muito mau de facto se levar o espectador perguntar-se sobre a validade do ponto apresentado. É por isso que a maioria dos anúncios usam o dispositivo literário da pseudo parábola como forma de fazer o seu trabalho. Tais “parábolas” como “The ring around the colar”, “The Lost Traveler’s Checks” e “The Phone Call from the Son Far Away” não só têm um poder emocional irrefutável mas, como as parábolas bíblicas, são inequivocamente didáticas. O anúncio televisivo é acerca de produtos apenas no sentido em que a história de Jonas é acerca da anatomia de baleias, o que é mesmo que dizer, não é. O que é o mesmo que dizer mais, é acerca do modo como uma pessoa deve viver a sua vida. Adicionalmente, os anúncios têm a vantagem de utilizar símbolos visuais vívidos através dos quais podemos aprender mais facilmente as lições prestadas. Entre essas lições está que mensagens curtas e simples são preferíveis às longas e complexas; que a dramatização é preferível á exposição; que vender soluções é melhor do que confrontação com questões e problemas. Tais crenças têm naturalmente implicações na nossa orientação para com o discurso político; o que é o mesmo que dizer, poderemos começar a aceitar como normal certas assunções acerca do domínio político que ou derivam ou são amplificadas pelo anúncio televisivo. Por exemplo, uma pessoa que tenha visto um milhão de anúncios televisivos pode muito bem acreditar que todos os problemas políticos têm soluções rápidas através de medidas simples – ou deveriam ter. Ou que a linguagem complexa não deve ser confiável, e que todos os problemas deveriam prestar-se a uma expressão teatral. Ou que argumentar não é de bom tom, e apenas conduz a uma intolerável incerteza. Tal pessoa pode também começar a acreditar que não é necessário traçar qualquer linha entre a política e outras formas de vida social. Tal como o anúncio televisivo usa um atleta, um actor, um músico, um escritor, um cientista ou uma condessa para promover as virtudes de um produto fora dos seus domínios de conhecimento ou experiência, a televisão também liberta os políticos dos seus limitados domínios. Figuras políticas podem aparecer em qualquer lado, em qualquer hora, fazendo qualquer coisa, sem parecerem excêntricos, presunçosos, ou de algum modo deslocados. O que equivale a dizer, elas tornaram-se assimiladas na cultura televisiva geral como celebridades.

    Amusing ourselves to death: Public discourse in the age of show business, de Neil Postman (Penguin)  [tradução selvagem por leitor improvável]

    ***** fontes ligadas ao negócio dos livros confirmam a tradução em 2026, por um grande grupo editorial português *****

  • Aceitam-se apostas

    A social-democracia vai ser enterrada pela cultura narcisista das redes sociais?